segunda-feira, 21 de junho de 2010

A Copa do Mundo é nossa!


Quem disse que as mulheres não se interessam por futebol?


- Gente, começou o jogo!
- Ih, o Dunga só tem esse casaco... Ninguém merece.
- Vamos ver se o Kaká joga alguma coisa desta vez...
- É, no jogo da Coreia ele resolveu só dar pinta. Tudo bem que ele é bonito, mas jogar também ajuda, né?
- Ai, gente... fala sério, ele é lindo!
- É lindo mesmo. Mas eu não pegava não...
- Por que não??
- Ah, sei lá... muito certinho... muito gelzinho no cabelo!
- Hahahahahahaha Esse gelzinho é mesmo um problema... Aliás, ele tá de mullets agora! Alguém manda esse cara cortar esse cabelo!
- Meu negócio mesmo é o Júlio César...
- Ai, ele é um gaaaaaaaaaaaato, né?
- Puxa, você também acha?
- Claro, quem não acha?
- Ai, gente, cruzes! Fala sério!
- Fala sério você! Que homem, nossa... Ele pode ME agarrar se quiser! Pra ele eu viro a bola!
- Casado com a Susana Werner, né? Aquela ali que se deu bem! Começar com um Ronaldo e terminar com um Júlio César é um bom negócio.
- Ah, não... Sou mais o Robinho...
- É mesmo, é um gatinho, né?
- Só tem que tirar essa barba...
- Pois é. Eu até gosto de um barbudo, mas nele não fica bem.

- Ai! Vai, vai, vai! Gooooooooooooooooooooooool!!!!!!!!!
- Goooooooooooooooooooooooool!!!!!!!!!!!
- Goooooooooooooooooooooooool!!!!!!!!!!

- Ufa, que bom!
- Ai, eu não aguento essa nobreza do futebol... Luís Fabiano, o Fabuloso! Ronaldo, Fenômeno, Adriano, o Imperador...
- Meio gay isso, né?
- ...Ricardo, Coração de Leão, Átila, o Huno...
- Kaká, o Belo! Hahahahahahahaha
- Cruzes! O que é essa chuteira amarela do Lúcio? Já é feio, ainda fica essa coisa competindo com a camisa!
- Ih, a cabeleireira do meu salão adora ele... Acha lindo...
- Credo!
- E esses negões, hein? É a camisa que é apertadinha ou eles que são fortes pra caramba?
- Acho que os dois. Os caras são uns armários, derrubam qualquer jogador nosso.
- Parecem jogadores de rúgbi! E correm pra burro.

(Intervalo)

- Gente, recomeçou!
- Vamos ver se agora esse jogo fica mais emocionante. O Brasil só erra passe, po!
- Sinceramente, eu não sei por que o Nilmar não é titular. Ele é tão bom...
- Ah, ele é muito novinho, talvez seja melhor ficar de trunfo mesmo.
- Quem é o Nilmar? É aquele novinho, né? Ai, ele é uma graça!
- Ééééé... um fofo...

- Nossa! Vai, isso, vai! Goooooooooooooooooooooooooooool!!!!!!!!!
- Gooooooooooooooooooooooool!!!!!!!
- Gooooooooooooooooooooooool!!!!!!!

- Ah, agora sim as coisas estão melhorando!
- Hahahahahaha até parece que não ajeitou com o braço! O juiz já perguntou com um risinho na cara!
- Esse árbitro é francês, acho que a metrópole quer mais é ferrar a colônia!
- Vocês ouviram isso? Dia dos pais na África do Sul e onze pais na seleção.
- O Kaká é pai? Que decepção...
- É, menina... Você não viu a mulher dele pregando naquele vídeo do You Tube, junto com a filhinha deles?
- Pois é, casamento pode acabar, mas filho é pra vida toda. Esquece o Kaká, querida.
- A seleção brasileira já foi mais interessante...
- Por isso que eles não correm. Todo mundo pai de família...
- ...Ninguém quer se contundir, “tenho filho pra criar”... Hahahahahahaha!

- Isso, vai! Goooooooooooooooooooooool!!!!!!!!!

- Puxa, esse foi de repente, né?
- Que comemoração mais gay! Um correndo pra trás, o outro pra frente...
- Só faltou um vestidinho branco rendado no Kaká! Muito romântico.
- Putz, o Elano faz um gol e sai. Se não é substituição, é contusão. Eis o homem que quer deixar sua marca em campo.
- Foi tirar a caneleira pra comemorar, deu nisso! Chutaram a Maria Clara.
- Uau, esses homens realmente tem umas pernas fantásticas...
- Homem de perna grossa é tudo! Perna fina eu não pego!
- Sério? Não tenho essa precondição não.
- Ih, gol da Costa do Marfim.
- Cruzes, que truculência!
- Gente, vocês viram o Kaká irritado? Nunca tinha visto ele desse jeito!
- Os negões tão violentos, hein?
- Gente, que é isso? Vai sair briga?
- Aproxima a câmera, caramba! Os caras vão quebrar o pau!
- Mas vocês viram que naquela hora o Kaká quase chutou o jogador da Costa do Marfim?
- Ih... não vai pro Céu...
- Expulso. Sabia.
- Vai chorar no vestiário, tadinho.
- Que nada, já saiu de campo chorando.
- Po, esses caras querem lesionar a seleção inteira?
- Vão pegar os brasileiros na saída...
- Próximo jogo, time inteiro reserva.
- Acabou. Ufa... menos mal... assim ninguém morre em campo.
- Ai, entrevista com o Júlio César! Aumenta, aumenta! Nossa, que homem...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

História bamba

O samba é a crônica da música (Caricatura: Lan)


"Quantas noites de tristeza ele me consola
Tenho como testemunha a minha viola
Ai! Se me faltar o samba não sei o que será
Sem a cadência do samba não posso ficar" (1)
(Délcio de Carvalho)



“Se, um dia, meu coração for consultado, para saber se andou errado, será difícil negar. Meu coração tem mania de amor. Amor não é fácil de achar. A marca dos meus desenganos ficou, ficou... só um amor pode apagar.” (2)

O primeiro bamba era um gato – um solitário de voz macia, olhos bondosos e estilo de vida fascinante. Talvez tenham sido as canções que ele ouvia o dia inteiro; ou talvez sua inteligência ímpar; ou ainda as lembranças dos anos que ele já viveu e eu ainda não.

Mas acho que não foi nada disso. Devem ter sido seus carinhos precisos, seus beijos macios, seus redemoinhos que me arrastaram para o seu mundo. Sim, acho que foram aqueles momentos em silêncio, que palavras não descrevem, mas cuja recordação é boa, ah, se é...

“Me deixa te trazer num dengo, pra num cafuné, fazer os meus apelos” (3), ele pedia sorrindo. Eu deixava, como não? E me apaixonava mais a cada elogio, cada plano, cada promessa de felicidade.

É claro que me confundi. Aquele era um amor fadado ao desencontro. Admito, me decepcionei ao descobrir a fantasia que construí para encobrir a verdade dolorosa que, no fundo, já conhecia. Mas não me surpreendi quando, ao interpelá-lo sobre o destino da nossa relação, ele friamente declarou:

“Tudo que quiseres te darei, ó flor. Menos meu amor. Darei carinho se tiveres a necessidade. E peço a Deus para te dar muita felicidade. Infelizmente, só não posso ter-te para mim. Coisas da vida... é mesmo assim. Embora saiba que me tens tão grande adoração, eu sigo a ordem e esta é dada por meu coração. Nesse romance existem lances sensacionais. Mas te dar meu amor, jamais.” (4)

“Lances sensacionais”. Então era só isso que ele queria. Me queria bem, isso decerto, mas nada de compromisso. Eu só não conseguia entender as atitudes enganosas de meu amante. “Se você não me queria, não devia me procurar, não devia me iludir, nem deixar eu me apaixonar” (5), rebati.

Ele, por sua vez, não compreendia por que aquela relação não poderia ter sido mais leve, mais solta, mais casual, enfim. Isso não. Não sou dessas. Queria-o só para mim, qual o problema? Ao perceber nossos objetivos diferentes, ele resolveu pôr um ponto final naquela história.

Durante certo tempo, sofri. Intercalava meu choro com lamentos de revolta e tristeza. “Seu jogo é carta marcada, me enganei nem sei por quê. Sem saber que eu era nada, fiz meu tudo de você! Pra você fui aventura, você foi minha ilusão. Nosso amor foi uma jura que morreu sem oração” (6), gritava nas horas de desespero. “Você abusou... tirou partido de mim, abusou...” (7), sussurrava entre os soluços da hora de dormir.

Mas passou, como era de se esperar. “Ali onde eu chorei, qualquer um chorava. Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava” (8). Eventualmente, aquela ferida virou uma cicatriz e parou de doer. Voltei a sorrir. “Finda a tempestade, o sol nascerá; finda esta saudade, hei de ter outro alguém para amar” (9). Esse é o espírito.

Coincidência ou não, depois de uma grande decepção amorosa, eu costumo me mudar de cidade. Apenas um mês antes de partir, no entanto, conheci mais um daqueles. “Malandro de fato é um cara maneiro, que não se amarra em uma só mulher” (10).

O segundo bamba eu já sabia que não ia prestar. Mas, fazer o que, era um sedutor de primeira. Carinha de menino e determinação de um leão. É... leonino é fogo... Foi num samba que ele me puxou pela cintura e não soltou mais.

Eu embarquei, mas de antemão já sabia: ele não se apaixona nem se compromete, não adianta tentar. “Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho” (11). Mantive isso em mente.

Meu novo amor era bem diferente do anterior. A inteligência divertida, os sonhos encantadores, a vida interessante, tudo isso era parecido. Mas nada de elogios, nada de planos, nada de promessas de felicidade. Nada de carinho, enfim. Apenas uma paixão avassaladora, combustão pura, sem oxigênio – espontânea e absolutamente exaustiva.

Só que como toda mulher de bamba, eu sou boba, e ensaiei uma paixonite. Os obstáculos tornavam nossa relação ainda mais emocionante: viagens desencontradas, enchentes que impediam nossas escapadas, horários de trabalho que nunca batiam. Mas quando nos víamos... Ah! A mistura de nossos sabores tinha o gosto da vitória!

Como toda chama, aquela relação ardeu e se apagou na mesma velocidade com que se acendeu. Foi só eu me mudar de vez, que ele desapareceu da minha vida sem deixar rastro. Já devia estar se esbaldando em outras cinturas, em outros sambas.

“Fui gostar de quem não gosta de ninguém e hoje só me resta a dor” (12), lamentei. Não alimentara esperanças desta vez, então a tristeza passou tão longe quanto a surpresa. Mesmo assim, difícil não se decepcionar.

“Será que o amor é isso? Se é feitiço, vou jogar flores no mar” (13), cheguei a pensar. Ah, até parece, eu já esperava, a quem eu queria enganar? Melhor assim. “Se quiser se distrair, ligue a televisão. Amor, comigo não” (14). A gente tem que se impor. Humpf!

Rio comigo mesma. Amores passam. Se para toda situação da vida existe um samba, é porque ninguém está só em seus desenganos. Estamos à volta com amores imperfeitos, talvez não tão eternos, nem tão incondicionais. Talvez nem tão amores. Mas ainda assim, como todo amor, sinceros e tolos.

“Ah, meu pobre coração... O amor é um segredo e sempre chega em silêncio como a luz do amanhecer. Por isso deixo em aberto meu saldo de sentimentos, sabendo que só o tempo ensina a gente a viver.” (15)
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Conheça as músicas desse texto:

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Rio


Toquem o vídeo para ler a crônica


“Finda a tempestade
O sol nascerá
Finda esta saudade
Hei de ter outro alguém para amar”
(Cartola e Elton Medeiros)



O tempo passava em velocidade dolorosa. Quanto mais a terça-feira se aproximava, mais apertado ficava o seu peito. Havia, claro, a empolgação da novidade, aquele feitiço, verdadeiro ímã que a atraía. Um novo emprego, novos amigos, ter seu próprio canto, tudo muito fascinante. Mas havia também uma apreensão em relação ao que ia deixar para trás: uma casa que era um refúgio, uma família grande e barulhenta, amigos-quase-irmãos e um homem... bem, um homem. E a cidade.



A cidade que era mais que uma cidade. Era a capital de um estado de espírito. Era uma vida de altos e baixos, de morros e praias, mistura infiltrável de perigo e beleza. O homem, também, era mais que um homem. Era a própria cidade encarnada em bronzeado. Sorriso tímido convivendo com a fala gingada e o beijo demorado de uma mesma boca. Carinho seco e sensualidade displicente de quem sabe que não precisa se esforçar para ser assim. Leveza de quem é profundamente sensível à séria desgraça humana. Um homem que era, na verdade, um eterno menino. Vocês sabem de onde. De todos os lugares e de lugar nenhum. Do nunca.



Seria a última vez que se veriam antes de sua partida. Ela aguardava ansiosamente pelo fim do dia. Não sabia o que aconteceria depois que fosse embora. Preferia não pensar. A chuva começava a bater nas janelas, com cada vez mais força. Talvez até mais tarde diminua, ela pensou. Mas o volume de água despejado pelo céu aumentava e aumentava, até que todo o estado ficou coberto por uma cortina líquida.



Em minutos, o Rio tornou-se um mar revolto. O oceano se irritou e se esparramou pela terra. Os cursos d’água não puderam mais correr em seus leitos estreitos, nem se espremer por galerias entupidas de detritos, não tendo outra escolha senão fugir pelas ruas. E a lagoa resolveu dissolver suas fronteiras e crescer até alcançar a porta dos ricos prédios que a cercavam.



Enquanto isso, nos morros, o solo não aguentava o peso do aguaceiro e expulsava, com violência, os casebres que, há anos, se equilibravam na ponta dos penhascos. O chão cedeu e, num instante, centenas de vidas se viram encobertas por uma avalanche negra. De uma hora para a outra, quem já não tinha muito ficou com menos que nada.



Todo mundo teve que permanecer onde estava. Ela, em casa. Ele, em um posto de gasolina no ponto mais suscetível a enchentes de toda a cidade. Celulares cortados. Não se veriam mais naquela noite. Teriam dificuldade de se falar. Ela se preocuparia em saber se ele voltaria bem para casa. Só Deus sabia a que horas ele sairia de lá. Ele e mais centenas de pessoas paradas no mesmo lugar. E mais milhares de pessoas paradas em outros lugares. E mais milhares de pessoas enfileiradas em seus carros no engarrafamento infinito. Ilhas e mais ilhas esperando a chuva passar, e a água voltar para o seu lugar.



Amanheceu. A chuva cessou. A água baixou, mas deixou a lama. Os carros ficaram abandonados nas calçadas, nos recuos, nos canteiros. Muitas ruas ainda alagadas e muitas pistas interditadas por causa de quedas de barreiras. O trânsito estaria insuportável, não fosse a recomendação das prefeituras e do governo do estado para que se ficasse em casa. Quase ninguém foi trabalhar, ninguém foi à escola. Prejuízo. As buscas nos locais de tragédia estavam a todo vapor. Começavam a aparecer os primeiros mortos.



Eles queriam se ver, pelo menos para se despedir. Ele não tivera como voltar para casa, do outro lado da Baía, onde mais tarde ocorreriam os piores desastres. Talvez por obra de uma força benéfica e piedosa, ele ficara no mesmo bairro que ela, o qual na noite anterior estivera isolado do resto da cidade por causa das enchentes. Os dois saíram na lama e fizeram valer algumas poucas horas em meio ao caos. A cidade estava triste. Ela também. Despediu-se com uma carta e muitos beijos.



Mais tarde, a chuva voltou. Não houve alagamentos, mas o desespero nas encostas só cresceu. Era apenas o início de uma sopa de números assustadores. Até a semana seguinte, seriam mais de duzentos mortos, onze mil desabrigados, sessenta mil desalojados, quatro mil famílias a serem removidas de suas casas e um bilhão de reais para fazer tudo isso. O retrato de décadas de descaso do poder público somado à falta de informação da população e à priorização de projetos cosméticos no lugar de reformas estruturais.



Mas não seriam só números. Esses dados teriam rostos, nomes, cores, lágrimas, vozes. “Se perder um já é difícil, imagine seis,” diria um sobre seus parentes mortos. “Minha casa está ali, intacta. Mas o mais importante, que é o meu filho, está ali,” diria outro apontando para um monte de terra. Durante vários dias, milhares de pessoas lamentariam seus mortos e a dor de perder o pouco que possuíam. O vazio de não ter mais nem mesmo um casebre construído sobre o lixo.



No dia seguinte, bem cedo, ela pegou suas malas e partiu. O céu estava cinza e a chuva caía fina, como o pranto contido Daquele que agora se encontrava isolado, bloqueado lá no alto de sua fortaleza de pedra, ainda de braços abertos. Na despedida, a cidade chorava. Mas ela não chorou. Porque sabia que, mais dia, menos dia, o sol voltaria a nascer.

domingo, 4 de abril de 2010

Um verbete


"Tem mil coisas pra gente dizer/ O difícil é saber terminar" (Foto: Custódio Coimbra)

“O meu lugar
É cercado de luta e suor
Esperança num mundo melhor
E cerveja pra comemorar”
(Arlindo Cruz)



Felicidade é almoçar no bufê da Confeitaria Colombo, lavar as mãos com sabonete líquido das Casas Granado e coroar a refeição com um espresso no balcão do Rubro Café em meio à bagunça do meio-dia. É percorrer becos tomados por casarões até os sebos empoeirados da Praça Tiradentes para resgatar revistas amareladas de baixo de bichanos preguiçosos esparramados.



Felicidade é encontrar Mozart, Beethoven, Verdi, Puccini, Carlos Gomes, Tchaikovsky, Rossini e tantos outros imortais embaixo de uma águia de ouro, e depois ir comer pipoca com bacon na esquina da Rua Santa Luzia. É ouvir o som de Villa pela Orquestra Sinfônica Brasileira, ou o som da Vila, a poucos passos dali, em algum sobrado de nome sugestivo.



Felicidade é mergulhar na alteridade à sombra de um antigo aqueduto, onde o Rock contempla o Clássico, o Samba se mistura ao Funk e o Hip Hop abraça o Soul. Onde as pernas dos casais se enroscam no Forró e na Salsa e os copos dos amigos tilintam em brindes de todas as cores. Onde os pés de prostitutas e travestis trilham os mesmos caminhos de irmãs de caridade da ordem de Madre Teresa.



Felicidade é estar no Morro da Conceição às onze horas de um sábado à noite, observado por ladeiras de paralelepípedos, casas do século XIX, uma imagem de Nossa Senhora e a sentinela solitária da 5ª Divisão de Levantamento do Exército. É ouvir as brincadeiras das crianças e cheirar a história da colonização sob a bênção imponente do edifício RB1, que ilumina tudo de longe com seu neon azulado.



Felicidade é dançar forró no meio da rua, comer buchada de bode e vatapá, jogar totó e fliperama, comprar um chapéu de couro e cantar “Olhar 43” no Karaokê, tudo isso em uma viagem relâmpago ao Nordeste brasileiro. É visitar aposentos reais cheios de dinossauros e aerólitos depois de ver macacos e leões. É quase tocar as estrelas com o olhar, chegar à Lua em um segundo e, brincando, entender a ciência de Deus.



Felicidade é sentar-se no Parque do Flamengo às cinco horas de uma tarde de primavera, sentindo o cheiro doce-cítrico das flores dos abricós-de-macaco e ouvindo o silêncio que às vezes se sobrepõe ao caos da grande cidade. É contemplar a amplidão do mar. Da areia de Ipanema, da Pedra do Arpoador, do alto do morro da Babilônia, do Mirante do Leblon, da Fortaleza de Santa Cruz, do Viaduto do Joá, do calçadão de Copacabana.



Felicidade é fotografar do lado de fora do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, entre a Baía de água brilhando e a obra do mestre Niemeyer. É ficar engarrafado na Ponte enquanto o sol se põe e ter por consolo a visão de navios, plataformas e guindastes fascinantes que recortam uma imensidão de amarelos, laranjas e liláses.



Felicidade é comer comida alemã ouvindo Jazz, jogar sinuca ouvindo Heavy Metal, beber chope ouvindo Pagode, passear na pracinha ouvindo Choro, sambar no Salgueiro vindo abaixo. É encarar uma hora e meia de caminhada pela Floresta da Tijuca só para, a um quilômetro do nível do mar, ver de cima aqueles prédios e aqueles parques, aqueles barracos e aquelas matas, aqueles morros e aquelas praias.



Felicidade é esperar o ano inteiro pelo mês de fevereiro, pela alegria dos confetes e serpentinas das ruas e pelo luxo das plumas e lantejoulas da Sapucaí. É o calor infernal da festa pagã que antecede quarenta dias de abstinência banhados em águas que lavam e castigam todo pecado. E prenunciam o clima brando do outono.



Felicidade é a devoção dos domingos no Maracanã, das promessas pagas de joelhos nas escadarias da Penha, das multidões cheias de Axé que veneram um santo guerreiro, das procissões rumo ao mar que com suas flores anunciam a chegada de novos tempos. É a devoção de um povo à sua própria cidade, apesar de todas as mazelas que a afligem.



Felicidade é caminhar sobre notas musicais, ondas e peixes, mas só pisar nos pretos, nunca nos brancos dos pianos das calçadas. É caminhar sabendo que, onde quer que se esteja, Ele está lá de braços abertos, sempre vigilante, olhando até mesmo por aqueles que estão distantes da Sua morada litorânea.



Felicidade é, sobretudo, carregar nos olhos paisagens intrigantes; na fala, um sotaque chiado; no sangue, uma ginga de quem já nasceu com rebolado; no coração, uma fé de quem vê Deus e o Diabo todos os dias; e, no rosto, um inconfundível sorriso. É poder carregar tudo isso para onde for e ainda assim sempre querer voltar.

 
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E pra você? O que é felicidade?
 

domingo, 21 de março de 2010

O Rio e a rua

Para o deputado GAÚCHO Ibsen Pinheiro, o ato foi bairrista. Hum...


 
Na volta para casa, outros motivos para protestar.


Imagine o lugar mais fantástico que conseguir. Imagine o silêncio do topo do Everest, a desolação do deserto do Saara, a imponência da Muralha da China, o mistério da Ilha de Páscoa, a exuberância da Floresta Amazônica, a amplidão do universo visto da Lua. Imaginou? Pois nada, absolutamente nada disso chega aos pés do lugar mais fantástico que existe. O lugar onde tudo acontece, onde a vida pulsa, onde a realidade se desdobra.



A rua. É lá que a massa encontra o indivíduo, que o jovem encontra o velho, que o pobre encontra o rico. É lá que a fama se dissolve no anonimato, ou se destaca dele; que o um se torna vários; que as personalidades se pasteurizam. A quietude da rua é absoluta em seu constante e ensurdecedor burburinho. A alegria da rua é o sangue bombeado por suas veias de dor. Agitação, delírio, um mar de sensações ignorado pelos passantes. Nada, absolutamente nada é mais fantástico do que essa complexa trivialidade.



A cidade do Rio de Janeiro celebra a rua todos os dias. Nem a violência, nem a desordem, nem os congestionamentos, nem as enchentes tiraram os cariocas das ruas. O morador do Rio é sedento da rua, quer ser sugado por seu redemoinho, dominá-la, não importam os riscos. Tudo na rua o atrai: o bar com mesas do lado de fora, o calçadão, os blocos, os mercados a céu aberto. Até quando tenta escapar do transtorno da multidão e do cheiro de urina dos cantos, a obrigação da rotina continua lançando-o no meio do caos dos transportes públicos e do ir-e-vir dos formigueiros humanos.



Deve ser por isso que, de vez em quando, a cidade se torna palco de alguns “fenômenos de rua”. A população toma de assalto o espaço público, de modo arrebatador e voraz, contraditório e, muitas vezes, um pouco difícil de explicar. A rua e o povo se autopresenteiam com essa forma empacotada e perfeitamente acabada do fantástico manifesto, o ápice do fantástico urbano, que depois torna a se diluir no dia a dia.



Foi assim naquele 17 de março. Milhares de pessoas. Bandeiras da pseudoesquerda brasileira. Trios elétricos. Músicos e globais. Juventude aos berros, discursos políticos vazios. “O que é bom pro Rio, é bom pro Brasil!” Balões nas cores do arco-íris, drag queens. Sindicatos, partidos, movimento pela diversidade sexual, movimento estudantil. Curiosos nas janelas. Governadores, prefeitos, senadores. Quissamã, Campos, Rio das Ostras, Macaé. Niterói, São Gonçalo, Belford Roxo, Duque de Caxias, São João de Meriti e “o km 32 de Nova Iguaçu”, dizia uma faixa, em defesa dos royalties do petróleo para o estado do Rio de Janeiro.



A cara do Rio. Sim, sem dúvida um protesto com a cara do Rio. Alegre, emocionante, bem-humorado, cheio de contrastes e misturas. E paradoxal. Como o paradoxo de uma manifestação chapa-branca, plantada pelo governo estadual, de olho na eleição, sem cães de guarda ou bombas de gás lacrimogêneo. Como o paradoxo da causa, nobre para os que temem um desmonte da economia fluminense, menor para os que questionam o bom emprego dos royalties pagos atualmente. Como o paradoxo de uma multidão de supostos apaixonados pelo Rio que traz consigo circunstâncias e objetivos talvez não tão louváveis. Servidores públicos liberados do trabalho para comparecer, muitos jovens desinformados – certamente não todos – presentes apenas pela farra do evento, militantes de partidos políticos, um ou outro famoso fazendo seu marketing pessoal.



Sem dúvida, um bom bloco carnavalesco. Os alunos dos colégios estaduais corriam, pulavam e se abraçavam nas calçadas da Rio Branco. Quem saía do trabalho, parava para ver. E pensar como iria fazer para voltar para casa. A chuva se encarregou de transformar o sanatório geral numa grande sopa, um caldo de gente de todo tipo, uma enxurrada que correu pela principal avenida da capital fluminense acompanhando o ritmo da batucada do Afroreggae. Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil. Que país é esse? Alô, alô, W Brasil. Braços abertos sempre a esperar. Do Leme ao Pontal, não há nada igual. Mulher, mulher, mulher, mulher, mulher...



O petróleo é nosso, arrá, urru!



Em vez de acabar em pizza, o ato acabou em sopa, no caldeirão formado na Cinelândia em torno de um palco cheio de celebridades. Debaixo de muita água e de muitos guarda-chuvas, a esperança de que uma solução menos danosa para os estados produtores de petróleo fosse encontrada em breve pelo Congresso. Ou simplesmente a vontade de ver Fernanda Abreu, Toni Garrido e MC Sapão de graça. Ou melhor, às custas do dinheiro público.

 
 
Passam-se os anos, mudam as palavras de ordem. Acredite se quiser:

domingo, 7 de março de 2010

Paulistanas: Inferninho cultural



Bem-vindo à "casa de todas as casas", cenário do filme sobre Bruna Surfistinha.


O ex-go-go boy e ex-bartenter RG, que na verdade se chama Douglas Rodrigues, sai todo fim-de-semana com sua caravana uniformizada para dançar nos queijos da boate Love Story, no Centro de São Paulo. Depois de oito anos, se tornou figurinha carimbada no local. Organiza a galera por Orkut e MSN e ficou amigo de todos os DJs da casa, que frequentam a sua esquizofrênica loja na Zona Leste, mistura de videolocadora e pizzaria.



O policial C. A. M., esse sim só deu as iniciais porque não queria se identificar. Também frequenta a Love há oito anos, hoje em dia com bem menos assiduidade do que três anos atrás, quando ainda não namorava a linda modelo gaúcha que sempre está a seu lado. Amigo de todos os funcionários, C. chega cumprimentando todo mundo, rindo e fazendo piada. Do alto da cabine do DJ, traça para mim o mapa da pista de dança. Embora não sejam sempre as mesmas pessoas, os lugares já são mais ou menos consagrados a cada tribo: os gays ficam à esquerda, os asiáticos mais atrás, as lésbicas à direita, mais à frente. “Lá ficam os ladrões. Já deu para entender por que eu não quero me identificar?”, diz C., apontando para a direita, próximo à entrada.



Outra habitué, M. – que também quer guardar o anonimato – é esteticista durante o dia e garota de programa à noite. Ela vai à boate umas três vezes por semana para arranjar clientes, por conta própria, e complementar sua renda. A abordagem é simples – “você vem sempre aqui?” – aquele papo como quem não quer nada. Antes, M. trabalhava na Augusta, mas hoje prefere a Love porque “não tem aquele clima de puteiro”. Lá, ela se sente mais segura e livre, sem a pressão da obrigação de trabalhar. E, de fato, o lugar não é uma casa de prostituição, mas sim uma “balada” como outra qualquer.



Já o químico da Votorantim F. vai à Love Story nada menos que quatro vezes por semana. Esse eu não vou identificar por vontade própria, para proteger sua integridade física. Isso porque a namorada do sujeito odeia o lugar e se descobre que ele andou aparecendo por lá, é a terceira guerra mundial. Se bem que eu acho que depois dessa descrição, ela já vai ficar possessa. Mas por que ir com tanta frequência a uma mesma “balada”? “É o vício da dança”, alega o rapaz, que acha que a Love tem “o melhor som de São Paulo.” Eu até acredito no motivo dele, afinal o cara não parou de dançar nem enquanto falava comigo.



Essa é a Love Story, a única “balada” à qual eu pude ir nesse pouco mais de um mês de trabalho árduo na terra da garoa e das enchentes. Inferninho famoso, conhecido pela mistura de tribos na pista e grande quantidade de profissionais do sexo que vão para lá trabalhar ou simplesmente se divertir depois do batente. Aberta de segunda a sábado, da meia-noite até mais ou menos dez da manhã, a boate começa mesmo a “bombar” lá pelas quatro, quando já não dá nem para respirar de tanta gente.



O interior cafona mais lembra um clipe do Mötley Crüe, com sofás e cadeiras de estofamento vermelho, queijos e mastros de pole dancing, iluminação alucinógena e um globo espelhado sobre o meio da pista de dança. Os frequentadores, acho que também fazem parte da decoração. Tem os descolados de tênis da Riff dançando house, as piriguetes de sainha rodada e top de oncinha rebolando até o chão, uma quantidade razoável de figuras de óculos escuros, uns chineses que nem esboçam sorriso e os go-go boys voluntários que “perdem a linha” nos queijos, com a camiseta mamãe-sou-forte erguida até o pescoço, deixando o peitoral definido à mostra.



Mas confesso que esperava um ambiente mais escuro e viciado. Cheguei contaminada pelo que já tinha ouvido sobre o lugar. De fato, a Love Story tem uma imagem de antro da libertinagem em São Paulo, e parece que todas as reportagens feitas a respeito são no sentido de tentar mostrar que agora a boate é meio cult e atrai até famosos. Aliás, os funcionários, com suas gravatas vermelhas e suas caras de garçons da Cinelândia, se empenham em defender a casa: “Uma das ‘baladas’ mais tranquilas de São Paulo”, “quase não tem briga”, “muito respeito entre frequentadores e funcionários”, “esquece tudo o que você ouviu lá fora”.



Tudo bem que não é bem assim. À medida que a madrugada avança, os clientes chegam cada vez mais bêbados, saídos de suas “baladas” originais. A truculência dos seguranças, nas portas, vai aumentando. No sábado em que estive lá, chegou a sair uma briga no meio da pista, por volta das seis da manhã, apartada rapidamente pelos funcionários. Enfim, mazelas infelizmente não exclusivas dessas Helps da vida. Nem tanto ao céu nem tanto à terra – nem o antro do pecado de sua reputação, nem o paraíso que os funcionários e alguns clientes pintam.



Blá, blá, blá à parte, o fato é que eu não achei a Love Story nada de mais. Para os paulistanos, a quantidade de prostitutas e travestis lá dentro pode ser mesmo meio chocante, principalmente porque, nas “baladas”, as tribos não se misturam. Mas para quem está acostumado com a Lapa e as praias cariocas, essa convivência entre as panelinhas é bem normal. Porque na “night” a gente se acostuma com esse tipo peculiar de democracia urbana.

 
Julia Wiltgen foi à Love Story escrever uma reportagem para o Curso Abril de Jornalismo 2010. Não, não foi para se divertir.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Paulistanas: O cosmopolitismo


O universo é grande; e a alteridade, absoluta (Cartum do argentino Gervasio Troche)



A cozinha era tão cosmopolita quanto uma cidade como São Paulo pode ser. Uma mistura desnorteante de sotaques brasileiros – gaúcho, paraibano, pernambucano, carioca – e o inglês arranhado de todo mundo para conversar com os gringos – argentinos, alemães, e, é claro, o iraniano Josh e a chinesa Jessica. Mas não havia um real consenso sobre o idioma oficial daquele lugar, pois, muitas vezes, os brasileiros mudavam do inglês para o português, e os argentinos se dirigiam a nós em espanhol mesmo. Uma deliciosa Babel em que todo mundo se entendia se mal-entendendo.



Cada um veio com suas histórias. A paraibana trouxe o bebê para uma bateria de exames no Hospital das Clínicas. A criança nasceu com uma doença de origem desconhecida que fibrosa seus pulmões, dificultando a respiração. Difícil acreditar, no entanto, que uma doença tão grave acometia aquele pequeno Don Juan, sedutor de nascença, com seus olhos de bola de gude e seu sorriso apaixonante. Sempre estendendo as mãozinhas na direção das moças bonitas. Nunca reclamando ou chorando. Um verdadeiro cavalheiro.



Mas não era para menos, ele teve a quem puxar. Não falo da beleza de sua mãe-e-pai, embora esta seja indiscutível. Falo da energia e da presença de espírito daquela mulher forte, cujo único homem na vida é um bebê frágil e adorável. Com sua aura leve, a jovem mãe de dois filhos enfrentou a biopsia de seu caçula para descobrir que sua doença só foi conhecida pelos médicos há apenas cinco anos. E ainda exclamou, com alívio: “De certo modo, ainda bem que foi nele que essa doença apareceu. Já imaginou se tivesse sido na mais velha? Seria uma doença totalmente nova, muito mais difícil de tratar.”



Com os argentinos o papo era outro. Mais mundano, mais trivial. Eles falavam mal dos brasileiros e davam em cima das brasileiras que, por sua vez, falavam mal dos argentinos. Tudo na mais perfeita ordem. Às vezes a conversa podia descambar para um assunto mais sério ou, pelo menos, mais delicado. Do tipo: “o que você acha dos argentinos?” Pergunta capciosa a qual me apresso em responder: “Ora, nunca convivi com argentinos para saber!” Ao que eles rebatem: “Mas o que os brasileiros realmente acham dos argentinos?” Droga, não vou me livrar tão fácil. O ideal é ser sutil. “Já me disseram que os argentinos são ótimos, com exceção dos portenhos, que são muito... (metidos, mas é melhor não dizer isso) ...fechados.” Sorriso irônico. “Nós somos portenhos.” Ufa.



Certa vez o debate foi sobre as diferenças entre o Brasil e a Argentina, e a visão que nossos “hermanos” têm de nós. Caprichei no meu discurso repleto de referências, porém genérico quando eu tocava um assunto do qual não entendia. Farsa completa que sou, acabei convencendo aqueles três, que mais tarde descobri serem cientistas políticos. A resposta do lado de lá foi quase um desabafo. “Vemos o Brasil como o irmão mais velho que deu certo. E sempre nos perguntamos como ele pode ser menos politizado, menos culto e, ainda assim, mais rico que nós. Vivemos ditaduras e passamos pela redemocratização mais ou menos nas mesmas épocas. Mas, embora tenhamos tentado, não conseguimos chegar onde o Brasil hoje está.”



Não sei se posso dizer se esses três são do time que supervaloriza o Brasil, mas tem gente que realmente acha que o grande pândego do Atlântico Sul tem algo mais a oferecer. Josh e Jessica, por exemplo, por que deixaram a China? Simples: “A China é muito chata. Os chineses parecem galinhas – acordam com o Sol e vão dormir quando escurece.” Nada de vida noturna, nada de crime, nada de novos clientes nos restaurantes após oito da noite. “Não há nada. É tranquilo demais”. Aparentemente, o iraniano fugido da guerra estava em busca de emoção. Acho que veio ao lugar certo.



Aquela cozinha, por si só, era um grande agito. Um caldeirão de histórias, línguas, culturas. A internet wi-fi, que se restringe àquela área da casa, conecta fisicamente as pessoas mais diferentes, que vão a São Paulo “tentar a vida”: estudar, trabalhar, fazer um tratamento médico, buscar um emprego, instalar uma empresa. Dos que permanecem aos que se vão depois do Carnaval. Reflexo da cidade que tudo oferece.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Paulistanas: "O Irã precisa de ajuda"


Got it?



Lá estava ele, como todas as noites, em frente ao computador. Trabalhava em horário chinês. A sede de sua empresa de importação e exportação ainda era a China, mas tentava transferi-la para o Brasil. Afinal, viera para ficar. Mas enquanto os trâmites burocráticos dificultavam sua vida, seu expediente era de madrugada. Aproveitava para aprender mais sobre esta terra e procurar a casa dos seus sonhos, possivelmente nos arredores de São Paulo.



Eu queria muito saber tudo o que Josh pudesse me contar sobre o Irã, de onde fugiu com a mãe e a irmã aos 17 anos. Começava a guerra contra o Iraque, e seu pai, veterinário do Exército, teve que ficar para lutar. Em seu refúgio, na Califórnia, Josh fez faculdade e abriu sua empresa. Anos depois, acabou indo para a China, onde conheceu sua esposa e se estabeleceu. Adeus Green Card suado – mais de seis meses fora de território americano é rua. Para reaver o documento, é preciso iniciar o processo do zero. Josh desistiu. Não quer mais voltar para os Estados Unidos, para junto da mãe e da irmã. Muito menos para seu pai, que jamais deixou seu país. “O Irã não é bom. Não há liberdade. Agora é a vez da América do Sul. O Brasil é o novo mundo. Nada de brigas com outros países, nada de guerras. O futuro está aqui.”



A pergunta que me abriu as portas da Pérsia foi a mais cretina possível: “o que você acha do seu presidente?” “Ele vai destruir o Irã,” respondeu Josh. Dava para sentir o nervosismo em seus gestos e no tom de sua voz. Parecia agoniado com a possibilidade de seu país afundar ainda mais. “O Irã precisa de ajuda, tem que se aproximar de outros países. Tem que haver mais liberdade e verdadeira democracia.” Para Josh, a comunidade internacional não entende que novas sanções só vão prejudicar o povo iraniano. Nesse sentido, sente-se até aliviado com a posição do Brasil de apregoar o diálogo.



“Esse presidente vai cair, ele não tem apoio popular.” Josh garante que a população o odeia, e que, se sua hostilidade e discursos levianos levarem o país a sofrer embargos, seus dias no poder estão contados. A maneira certa de medir a insatisfação do povo com seu governante está nas táticas de desobediência civil, aprimoradas após a Revolução. As pessoas escrevem frases de oposição ao governo nas notas de rial, a moeda do Irã, e as fazem circular com o dinheiro. Como não é possível identificar os autores da ação, ninguém pode ser punido. Simplesmente genial. Afora isso, ainda persistem as antigas táticas de lutar contra a opressão: as mulheres se enchem de maquiagem e exibem um pouco dos cabelos para mostrar sua insatisfação com o véu; e as festas em casa permitem que as pessoas sejam elas mesmas, falem à vontade e manifestem sua individualidade por meio de roupas diferentes das que usam nas ruas.



Desde a Revolução, em 1979, os iranianos lamentam a sorte de viver em um país para o qual o mundo inteiro virou as costas. O movimento xiita derrubou uma ditadura alinhada com o Ocidente para implantar outra, islâmica e radical. Os árabes sunitas, apoiados pelos Estados Unidos, se voltaram contra o Irã, até hoje praticamente isolado no Oriente Médio. A Pérsia caiu em um limbo – não é árabe, nem judia, nem amiga dos americanos.



A baixa autoestima da população é resultado direto de anos de censura, guerra, radicalismo, rígido controle moral e uma economia em frangalhos. Agora, esse povo historicamente politizado – pelo menos na capital, Teerã – se vê às voltas com taxas oficiais de desemprego e inflação de mais de 10%, embora esta última já deva, na realidade, ter ultrapassado 20%.



“Por que ele diz que é preciso varrer Israel do mapa? Por que ele gastou todas as reservas deixadas pelo presidente anterior?” Josh se irrita com a postura belicosa e populista do líder do Irã. Chega a sentir saudades do regime do Xá, a monarquia derrubada nos anos 70. “Pelo menos havia alguma liberdade.” Hoje, só resta a amargura de mais de 70 milhões de iranianos céticos.



“Ninguém mais tem religião no Irã. Ninguém mais acredita em Deus. Todo mundo pensa que os iranianos são terroristas islâmicos radicais, mas isso não é verdade. Só o Estado se autointitula islâmico. Mas é oco.” Generalista e taxativo, Josh, na verdade, fala por si. Não consegue mais acreditar em Deus. Nem numa religião tão deturpada ao longo do tempo pelos mandantes de seu país. Ele garante que ninguém reza no Irã. Ninguém.



Para alguém que vem de uma terra que retrocedeu e parou no tempo, o Brasil é um grande exemplo. Afinal, aos olhos de Josh, o “gigante da América Latina” superou uma ditadura militar e crises econômicas para, finalmente, se tornar um país próspero, influente e democrático, ainda que com muita pobreza e desigualdade social. Foi Josh quem encerrou o nosso papo. “Ah, não quero mais falar sobre o Irã. Não sou mais iraniano, meus filhos não vão falar farsi. Quero ser brasileiro agora.”

domingo, 31 de janeiro de 2010

Paulistanas: os andarilhos


Manchete de jornal local: "O Sol brilha em São Paulo" (A Giuliana, outra carioca perdida em Gothan City)


 

São Paulo, a “terra da garoa”. Poucos apelidos geográficos são tão adequados quanto este. Porque o Rio não é bem a “Cidade Maravilhosa”, basta sair um pouco da bolha chamada Zona Sul. Paris só é a “Cidade Luz” no que diz respeito às ideias, porque se dependesse da iluminação pública... E a Flórida pode até ser “the sunshine state”, mas quando resolve chover e ventar, escondam-se nos seus bunkers!



Cheguei em Sampa e chovia. Chovia não, o mundo desabava e as ruas dos Jardins, onde eu estava hospedada, se transformaram em rios selvagens, arrastando chinelos e guarda-chuvas. Malditas ladeiras! Os paulistanos resolveram construir sobre todas as colinas, transformando a cidade inteira em uma academia de ginástica ao ar livre, o que deve ser excelente para quem trabalha muito e não tem tempo de se exercitar. Mas a verdade é que São Paulo acabou se tornando uma cidade sem pontos de referência. Você olha para o horizonte e... que horizonte?



Durante um mês, meu lar não foi dos melhores. Já tive experiências mais esquisitas, confesso, mas tudo tem um preço, e o que eu paguei foi literalmente muito mais alto do que o serviço contratado merecia. Modéstia deveria ser o adjetivo certo para aquela pousada meio albergue, mas acho que “pouco higiênico” seria mais adequado. Honestamente, espero nunca saber como foram tratados aqueles lençóis e toalhas, principalmente depois que vi o estado da esponja de lavar a louça da cozinha compartilhada. Um pequeno caramujo que encontrei no banheiro serviu de medidor natural da umidade relativa do ar naquele recinto onde toalhas estendidas nunca secam. Decidi, então, olhar o lado bom das coisas e considerar que minha estadia serviria para fortalecer o meu sistema imunológico.



Não se espantem, nem tudo foi terrível sob aquele teto. Muito pelo contrário. A área comum, cozinha-copa-sala, apesar do permanente fedorzinho de mofo, revelou-se o melhor lugar para passar as horas vagas, conversar, ler, trabalhar e até para escrever. Este texto, inclusive. Gente, gente por todos os lados, de todos os lados, falando em outras línguas, outros sotaques, televisão ligada na novela, cheiro de comida, bebê balbuciando, violão, música brasileira pra gringo ouvir e assim por diante. “Tudo junto e misturado”, como se diz no Rio. Difícil se concentrar, e era justamente esta a vantagem. Oportunidade única de trocar ideias e experiências – de viver, enfim.



Foi lá que o conheci. Joshua – ou, na verdade, Reza – um iraniano que deixou Teerã aos 17 anos, durante a guerra Irã X Iraque, nos anos 80. Ele estava sentado na copa, navegando na internet, quando perguntei por um dos responsáveis pela pousada. Josh conseguiu balbuciar que não entendia português e perguntou se eu falava inglês. Disse que sim e repeti a pergunta. Sua expressão facial revelou um breve ímpeto de felicidade. Após sua resposta, acrescentou que nenhum funcionário ali o entendia e que não aguentava mais se comunicar através de mímica. Depois desse dia, virei sua tradutora oficial junto ao staff da pousada.



Dessa casualidade, surgiu uma relação galgada numa extrema curiosidade de um em relação ao outro, à cultura e ao mundo do outro. Josh foi descobrindo a língua portuguesa, com sua diversidade de sotaques e regras gramaticais sem sentido, e a cultura brasileira, com todas as suas surpreendentes contradições. Eu queria ouvir sobre os países onde ele esteve: China, Itália, Índia, Paquistão, Alemanha. Mas, sobretudo, queria saber sobre o Irã. O Irã além do que o Jornal Nacional nos traz. Além da polêmica rasa sobre a recepção de Lula a Ahmadinejad. O Irã aos olhos de um iraniano comum, que ama a liberdade e deseja ardentemente um futuro melhor para o que já foi seu país, agora em frangalhos. Se o Ocidente pensa que sabe quem são os iranianos, está enganado.



Mas, no começo, minha saudade do Rio e sua avidez de conhecimento sobre o Brasil voltaram o holofote para o meu discurso professoral sobre cultura e história brasileira. Por que vocês falam “vintchi” e não “vinte”? Qual o certo, afinal? Como vocês conseguem viver no Rio de Janeiro? Lá não é muito violento? Não tem muito crime? Os pobres vivem nos morros, não é isso? O que significa esta palavra (apontava para um anúncio de jornal)? Lula não foi o melhor presidente que o Brasil já teve? Por que no Brasil quase não tem trem? Aqui é muito úmido, onde o clima é mais seco?



Uma avalanche de perguntas, questões que nunca faríamos a nós mesmos. O iraniano fugido da guerra e apavorado com o crime nas grandes cidades brasileiras não conseguia compreender a vida no Rio, em meio a tiroteios, assaltos e favelas. Difícil fazê-lo entender que não é um bombardeio constante, e incômodo dizer “não estamos em guerra civil”. Afinal, o que é a guerra? Não sei se ele ou eu ou quem quer que seja sabe definir realmente bem.



“No Rio tem muita ‘favela’, não é?”. Assim mesmo, em português, favela. Não são slums, agora é coisa nossa. Eu respondo: “elas normalmente ficam nos morros, mas às vezes nas áreas planas também. Mas existe uma divisão espacial clara entre favela e asfalto.” “Então, lá de cima, os moradores devem ter a melhor vista da cidade, certo?” Foi uma piada. Ele riu. “Sim,” respondo séria. “As favelas da Zona Sul são verdadeiros mirantes. Há turistas estrangeiros que pagam para se hospedar ou visitar lá por cima, especialmente após algumas pacificações.” Não sei se ele acreditou. Continuou a rir.



Mais assustada ainda com a criminalidade estava Jessica, a esposa de Josh. Ela é chinesa. “Olá, meu nome americano é Jessica, prazer.” Mais uma para a minha lista de contatos binominais, como o holandês chamado Stewart, a vietnamita chamada Joyce e a chinesa chamada Alison, que conheci quando estive nos Estados Unidos. Mais uma que escolheu um nome mais palatável à ignorância da América, para tornar mais digeríveis suas “incômodas” culturas.



Josh e Jessica queriam saber de tudo. Vieram para ficar. Procuravam moradia nos arredores de São Paulo, na região metropolitana. Não queriam saber da pauliceia desvairada – trânsito, crime, poluição. Buscam o “sonho americano” em terras tupiniquins, uma casa ampla de subúrbio, com cerquinha branca e vaga na garagem. Qual não foi a decepção quando descobriram que São Bernardo do Campo é exatamente igual a São Paulo, só que menor. Olhavam anúncios de condomínios de casas fechados, daqueles que isolam os moradores da fascinante experiência da rua. Eles não queriam rua. Mas lamentavam: “aqui não se desperdiça terreno, como nos Estados Unidos!”



Josh morou na Califórnia, onde fez faculdade. Foi lá que sua família se refugiou após deixar o Irã. Já morou na Itália e na Alemanha, e, recentemente, estava na China. Foi lá que conheceu Jessica. Passou tanto tempo fora dos Estados Unidos que seu Greencard expirou, e agora ele nem quer mais voltar. Sua mãe e irmã ainda estão lá. Já seu pai continua no Irã, de onde nunca saiu. Josh veio para o Brasil para instalar aqui a sede de sua empresa de importação e exportação. “É hora da América do Sul agora,” diz.



(Continua...)

domingo, 17 de janeiro de 2010

O dia em que o mundo acabou



O Haiti também é aqui


O sol se levanta e, com ele, saímos da cama entediados, movidos pela rotina, a almejar o fim do expediente e o retorno para casa, a volta da noite e da cama. O ano começa, em março, depois do Carnaval, e já aguardamos ansiosamente a chegada do Natal, do Réveillon, dos recessos, dos presentes e da promessa de um novo ano, com novas promessas que não serão cumpridas. Desesperançados, elegemos nossos governantes, torcendo pelo fim de seus mandatos, quando concluiremos, como previmos, que nada de bom foi feito. Casamos com o frio na barriga da incerteza, nos perguntando quando a paixão vai acabar, quando vai cair na rotina, quando vamos nos divorciar. Criamos nossos filhos ansiosos – para o bem e para o mal – com o dia em que nos deixarão e seguirão suas vidas com os próprios pés; e nos preocupando a cada saída, passando as noites em claro até que eles voltem da boemia em que mergulham a partir da adolescência.




Passamos a vida a olhar para o relógio, desejando as próximas férias, os próximos verões, as próximas Copas do Mundo, os próximos aniversários. Aguardando – e temendo – o fim. O inevitável e inexorável fim. A morte? Sim, esta que está presente em todos os momentos, certa em qualquer vida. Mas também o fim do mundo. Não o lendário abismo que traga os navios desavisados. E sim aquele anunciado pelos mendigos loucos. Aquele do livro do Apocalipse, proclamado por Nostradamus, previsto pelos povos pré-colombianos. Aquele que talvez será trágico, cheio de catástrofes climáticas, gritos, guerras, sofrimento. E que esperamos nos trazer a salvação, pela força da nossa fé.



Só que o mundo já acabou. Muitas e muitas vezes. Acabou com o sangue derramado pelas guerras civis esquecidas, com a luz e o calor dos cogumelos atômicos, com a força das epidemias que se espalham na velocidade da globalização, com as águas das chuvas que levam encostas e das ondas que invadem cidades, com a fúria de aviões usados como armas. E na tarde de 12 de janeiro de 2010, o fim chegou outra vez.



Chegou sacudindo os corpos, envolvendo tudo em uma névoa branca, em meio às vozes suplicantes de um povo expressivo, gestual, musical demais para conter o próprio lamento. O concreto rachou, as lajes cederam e cidades inteiras vieram abaixo em minutos, soterrando mais de 50 mil histórias. E quando a poeira baixou, levantou-se o caos, junto com as lágrimas e o mais extremo desespero humano. A situação limite que leva crianças a se banharem nas águas que escorrem pelos meios-fios e os adultos a celebrarem missas e rituais vudus em praça pública. Suplicando a forças superiores o perdão dos prováveis pecados que atraíram aquela verdadeira punição; ou a lição a ser aprendida, que talvez fosse o motivo de tal tribulação.



A Terra pôs o dedo no formigueiro, destruiu suas galerias e dispersou uma massa confusa de gente sofrida e lutadora. A multidão caminha perdida por ruas repletas de corpos empilhados, que se decompõem junto com a frágil estrutura do país mais pobre das Américas. O cheiro de urina e de morte se mistura ao clamor dos sobreviventes que há dias não veem a luz. E naquela língua ritmada e estridente, naquele francês remodelado pelo sol dos trópicos, as mulheres rezam, incorporam, imploram por bênçãos no meio da mais completa desolação.



A ajuda chega tímida e cai dos céus como se alguém tivesse ouvido aquelas preces. Mas em instantes o maná some, tragado pela violência da luta pela vida. Ao vencedor as batatas – a filosofia do fim do mundo. No caso, ao vencedor a água, artigo de luxo quando toda a dignidade humana se esvai. O cenário é o da contradição: de um lado a crueldade da lei da selva e de outro a inexplicável e instintiva solidariedade. A alegria de ouvir um choro ou um grito sob vários palmos de terra e escombros. O regozijo daqueles que já não têm nada além da esperança e cavam com as próprias mãos, até que elas sangrem. E desse afã por resgatar um parente ou mesmo um desconhecido, tira-se forças, porque o corpo quase desfalece sem alimento.



Nos bolsões de pobreza, o racionamento e a escassez vêm acompanhados do medo da volta da guerra, trazida pelos oportunistas que retornam aos redutos do crime. Nos hospitais, feridos e despossuídos se acumulam em busca de conforto, de algo que amenize sua dor, nem sempre física. A fome já começa a matar. Morrer de fome. O degrau mais baixo na escala dos possíveis fins às trajetórias humanas. A mais devastadora forma de solidão que um corpo pode encontrar no seu instante derradeiro. A maior perturbação a atingir a alma que está prestes a se libertar.



Por todo o planeta, a compaixão de quem não pode nem imaginar o que seja uma tragédia desse porte. O mundo volta seus olhos egoístas para aquele povo que há séculos sofre calado, mas que, hoje, por causa da natureza, é o centro das atenções. Uns se mobilizam para ajudar, outros tantos se promovem por meio desse súbito acesso de solidariedade, e no fim das contas não se sabe quais são de fato as atitudes louváveis. Se é que se pode pensar nisso num momento em que o que vier, é lucro. Para todo mundo, aliás. A imprensa se dirige em peso para essa metade de ilha, ignorada pelo noticiário na maior parte do tempo, para enfiar seus microfones e gravadores na cara dos capacetes azuis, em busca de relatos fidedignos do espetáculo do horror. Queremos saber, todos queremos saber. E mostrar. E ver. E, nesse momento, a invasão das câmeras toma uma forma paradoxal e não se sabe qual deve ser a medida e a forma de contar aquelas histórias. Não se sabe mais o que é exploração do sofrimento alheio e o que é função social, no sentido de tentar atrair mais e mais ajuda para quem está necessitado de tudo. Caem os ternos e as gravatas e o texto empertigado e ficam apenas os testemunhos.



A imprensa poderia simplesmente ligar câmeras e microfones e deixar que as máquinas fotográficas disparassem sem parar. O cenário horripilante falaria por si. A humanidade veria a peregrinação de quem perdeu tudo e não tem mais para onde ir; assistiria ao trabalho de homens e mulheres que dedicam suas vidas a salvar e cuidar de outras, em fardas, jalecos ou trajes ritualísticos; acompanharia a desova de milhares de corpos em uma vala comum, como se ali não houvesse histórias, individualidades, unicidades que merecessem ser veladas e choradas; e poderia tomar como exemplo esse povo de fibra, discriminado, lutador, que se move como se estivesse dançando e fala como se estivesse cantando. Um povo embrutecido, capaz de fugir do próprio país para tentar a vida em outro lugar, desempenhando qualquer função em troca de qualquer salário, a fim de sobreviver com um pouco mais de dignidade. Mas que mesmo tendo que conviver com a pobreza e as catástrofes naturais de uma terra instável, fala um idioma carinhoso que transformou todas as mulheres em mamas e todos os homens em papas.



Desde o dia 12 de janeiro, lamentamos a chegada de mais um fim do mundo, em meio aos outros tantos que aguardamos e tememos, sempre nos esquecendo de aproveitar nosso presente. Nos nossos ouvidos ecoa a voz da mulher que filmou a capital de seu país arrasada e, como numa súplica ao resto da humanidade, exclamou em inglês, depois de dizer várias frases em creole: “o mundo está acabando!”

domingo, 10 de janeiro de 2010

Arrumação




"O quarto", de Vincent Van Gogh


“For you I was a flame
Love is a losing game”



Lá está ela: a dor. Ela não quer ir embora. Pode estar cada dia mais fraca desde que eu parei de alimentá-la, mas insiste em ficar. Acho que ela se sustenta das lembranças boas que eu tenho de você. Já pensei em jogá-las fora, lembra? Mas mudei de ideia. Que bom. São bonitas, ficam bem na minha estante, ao lado das flores que eu te dei. Espero que não tenha se livrado das suas. Lembranças, digo, não das flores. Essas já devem ter morrido, junto com a nossa história.



Acho também que a minha dor se alimenta desse sentimento lindo que eu ainda tenho. Sei que você não quer que eu diga que é amor, então não vou dizer. Esse eu também não consigo jogar fora, e não porque eu pense que você pode querê-lo de volta, não é isso. Sei que não quer. Mas é que ele não me larga, não sei por quê! Quando tento me livrar, ele se agarra em mim, do mesmo jeito que a gente se agarrava feito dois pólos opostos de um ímã que ninguém consegue separar. Opostos. Pois é. Eu sempre disse.



Esse sentimento é diferente daquele que eu te confessei naqueles dias idos. Não é mais o amor de quem quer crescer a seu lado, estar junto, te proteger, te levar mensagens de esperança na hora do medo. Aquele era um amor impossível, por mais que você não acredite na existência do amor se ele é impossível. Acho que por isso mesmo ele se retraiu para um cantinho, no fundo do meu quarto, bem longe da estante.



O sentimento de agora é mais suave, sabe que não é correspondido. É um amor por tudo o que você representou. Suas olheiras, seus cabelos ralos, seu sorriso de gato da Alice... o cheiro de cigarro que ficava na sua barba quando você fumava. Seu toque, seu abraço, seu calor... suas mãos, seus carinhos, sua voz grave no meu ouvido. Sua gata de estimação e o fascínio que ela tem por você.



Sua intensa dificuldade em tomar uma decisão até para escolher as coisas mais simples. Sua mania de ser profundo com os assuntos mais banais. E a maneira que você tinha de me fazer sentir a pessoa mais fútil do mundo nessas horas. Sua insistência diária em frisar a nossa diferença de idade e falar dos males “da minha geração” – o estranho incômodo que te dividia entre desejo e decepção.



A “minha geração”... Uma geração doente, mas talvez não tanto quanto a sua. Enfim, eu sei que foi nesse abismo que eu esbarrei na minha própria danação. Eu, uma menina que você fez acreditar ser mulher, tropecei e caí nessa armadilha do deslumbramento pelo “cara mais velho”, aquele verdadeiro lobo mau que desvirtua a Chapeuzinho de seu caminho seguro pela estrada afora. Essa criança boba, que não sabe nada da vida, arriscou e sucumbiu aos encantos do sedutor, cheio de ar paternal, cujas marcas no corpo já contam uma história. Uma história pela qual minhas páginas em branco tanto se interessaram.



Mas apesar de saber disso, a minha saudade me invade à noite ou sempre que meu olhar se perde durante uma longa espera. E aí, minha alma revive a paixão maravilhosa que a gente tinha, aquele tesão enorme que fazia a minha pele grudar na sua e não querer mais soltar. Ah... a sua pele...! Nenhuma diferença – de idade ou de opiniões – naquelas madrugadas cheias de música e gemidos à luz de uma lâmpada de estudos. E o beijo. Aquele beijo que eu nunca vou conseguir esquecer. “O melhor beijo do mundo!” Lembra que uma vez eu disse isso? É, não... acho que não vai lembrar.



Sabe, eu acho que, na verdade, não é de nada disso que a minha dor se alimenta. Deve ser da saudade. Essa, quando passar, vai matar a dor de fome. Aí eu quero ver. No dia em que isso acontecer, vai ser muito bom. Pois aí só vão sobrar as boas recordações a me arrancarem sorrisos de canto de boca. E talvez, cristalizado no fundo do armário, restará o amor no qual você não acredita.



Mas eu sim. Porque esse amor não nasceu do tempo da nossa convivência ou do quanto eu conheço você; não nasceu por causa das suas qualidades ou das semelhanças entre os nossos pensamentos. Nasceu do que a gente tinha, do que existiu, e tão somente disso – pela pessoa que você é, e pelo que eu acreditei que poderíamos ser.

domingo, 3 de janeiro de 2010

O Rio, o Morro e o táxi*



Ladeira do João Homem, no Morro da Conceição

- Bom dia. Vamos para o Morro da Conceição, no Centro. O senhor conhece?

- Não, já ouvi falar, mas nunca fui lá.

- É só pegar a Rua do Acre, ali na altura da Uruguaiana e entrar à esquerda na subida. Pode deixar que eu mostro o caminho.

- Pois não, senhora.

- O Morro da Conceição é a minha mais recente descoberta fascinante dessa cidade.

- É mesmo? Por quê?

- O senhor vai ver. Lá em cima é lindo! Casas de mais de cem anos, algumas muito bem conservadas, ruas de paralelepípedo, uma tranquilidade...

- Mas lá não é perigoso não?

- Que nada... Lá em cima tem um forte do exército com vigilância 24 horas... E é um lugar residencial. Os moradores ficam na rua até tarde, inclusive crianças e adolescentes. Parece uma cidadezinha de interior.

- Que maravilha, hein? É lá que a senhora mora?

- Não. Um amigo meu.

- Poxa, quem iria imaginar que existe um lugar assim em pleno Centro do Rio...

- E o senhor sabe que lá foi um dos primeiros lugares colonizados na cidade? É um local de grande riqueza histórica...

- Tem ares de Rio antigo?

- Exatamente! Um Rio pré-Pereira Passos, do século XIX. Um Rio de Machado de Assis.

- Nossa, posso até imaginar. A senhora é historiadora?

- Não, jornalista. Ou quase-jornalista. Meu diploma está a uma monografia de distância de mim.

- Ha ha ha ha! Mas com o fim da obrigatoriedade do diploma, talvez a senhora já possa se considerar uma jornalista!

- Hum, é mesmo, não tinha pensado nisso! Ha ha ha ha! Essa foi boa...

- A senhora não se incomoda com isso não? Ter passado anos na faculdade para sair com um diploma que não serve de nada?

- Mas diplomas em si não “servem” de nada. Eles apenas comprovam que você foi matriculado em determinada instituição durante “x” anos. O que se aproveita desses anos é o que de fato faz um profissional. Eu não troco o ambiente universitário por nenhum pedaço de papel no mundo. A faculdade só dá os meios para que o próprio estudante corra atrás da sua formação.

- Pode ser. Nunca tinha visto por esse lado. Eu não tive oportunidade de fazer faculdade, sabe? Mas bem que eu gostaria de ter feito. Por exemplo, eu sou um cara que gosta muito de História, como a senhora. Mas às vezes eu sinto falta de uma formação mais sólida. Só ler, por conta própria, não é a mesma coisa. Sinto falta de trocar umas ideias.

- Justamente, é disso que eu falo. O senhor gosta de Machado de Assis?

- Só li um livro dele até hoje. Aquele da Capitu, “Dom Casmurro”. Gostei bastante. É uma aula de História e de Português.

- É verdade! Eu adoro Machado. Minha monografia é sobre as crônicas dele.

- Sério? Puxa, crônica é um troço muito bacana...

- Também acho. Tem um quê de jornalismo e um quê de literatura. E um quê de táxi também.

- Como assim?

- Ora! Os taxistas são grandes contadores de histórias, ou não? Como os escritores, os cronistas, os jornalistas. A crônica é como um táxi: a gente entra nela por breves instantes, ouve uma boa história e vai embora. E nesse meio tempo ainda é transportado de um lugar a outro.

- Gostei disso! A senhora trabalha com crônica?

- Não. É só o tema da minha monografia. Eu trabalho com televisão, na editoria local. Tem alguma semelhança com ser cronista também, não é? Contar histórias da cidade...

- Deu para perceber esse seu lado quando a senhora entrou no táxi.

- (Agora o senhor pode entrar nessa rua e subir até o final.) Pois é, eu gosto de contar histórias. Mas não sou muito boa de inventar não. É fácil me pegar na mentira! Ha ha ha ha! Meu negócio são as histórias da vida real. Talvez por isso tenha escolhido essa profissão.

- Vou dizer uma coisa: sou um grande observador da vida real. Já vi e ouvi de tudo dentro desse táxi. E com certeza não há trama de novela ou de Machado de Assis que se compare ao que se passa nesse mundo de Deus.

- É verdade, penso o mesmo. Pode parar aqui. Aí vai.

- Obrigado, senhora. Realmente aqui em cima é muito bonito. Nunca imaginei que fosse assim!

- Não é incrível?

- Com certeza! Vá com Deus e boa sorte aí na contação de histórias!

- Obrigada! O senhor também!

* Essa história não é verídica. Este foi o texto da minha aprovação no Curso Abril de Jornalismo 2010, de tema "Quem sou eu e por que quero trabalhar com jornalismo". Dedicado a uma pessoa especial e a um ano arrebatador.
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