terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A rotina do café

A Rafa faz um capuccino assim, com as bordinhas pra fora... Ela faz com as bordinhas pra dentro também...




Todos os dias é a mesma coisa. Depois do almoço, sempre no mesmo restaurante, não posso deixar de dar uma passadinha na cafeteria ali da Visconde de Inhaúma, no Centro, perto de onde eu trabalho. Meu café espresso diário, pra dar o vigor pós-refeição.


Vou até o caixa e cumprimento o dono (pelo menos eu acho que ele é o dono), que logo pergunta: “um espresso, não é?” É, é sempre um espresso. Eu lhe entrego meu cartão de ticket refeição e um cartão promocional, que ele carimba a cada espresso que eu tomo. Ao completar dez carimbos, ganho um café de graça. É... isso me tornou uma cliente fiel...


Ele passa meu cartão de ticket na maquininha e o devolve imediatamente, dizendo: “a senha, por favor.” Enquanto eu digito, ele carimba o cartão promocional. Depois, me entrega o cartão junto com a segunda via do cliente e a notinha fiscal, que eu jogo fora em seguida. Ele sabe que eu sempre jogo fora. Mesmo assim, continua me dando.


O caixa geralmente está cheio. É apertadinho, engraçado. Tem um monte de coisa pra vender ali. Do lado direito, sorvete Itália. A quilo! No balcão do caixa, livros de bolso, chocolates, fumo, cigarros... até narguilé tem! Acho que é uma cafeteria-tabacaria, sei lá! Só faltam os canivetes suíços.


Depois de pagar o café, sigo para o balcão. A Rafa logo me cumprimenta. Três segundos depois, o espresso está na minha frente. Eu nem preciso pedir. Ela já sabe. Espresso – com o tradicional shot de água com gás – SEM o chocolatinho. Porque uma vez eu disse a ela que não precisava e ela perguntou por que não, se eu não gostava de chocolate. Eu respondi: “Puxa, eu até gosto, mas se eu comer um chocolatinho todos os dias não vai dar certo!” Ela achou graça. Mas, desde esse dia, nunca mais me deu o chocolatinho. E sempre que outra barista prepara o meu café – e ela sabe que é o meu – ela recomenda: “Sem o chocolate!”


A Rafa é muito eficiente. Quando me vê entrar na cafeteria, já vai preparando o meu café. É muito simpática também. Tem um jeito fofo de falar, com um sotaque carioca bem carregado. Parece ser bem jovem, talvez tenha a minha idade. Ela tem cabelos pretos, com um corte meio diferente, e a parte de baixo é pintada de louro. Acho que ela é bartender também, pelo que ouvi numa de suas conversas com as colegas, um dia desses. Acho legal mulheres serem bartenders ou baristas. Sei lá, é descolado.


Um dia a Rafa me colocou no meio de um de seus papos. Um cliente fez uma brincadeira com ela, a respeito não sei de quê (não prestei atenção), e ela virou pra mim e disse: “Eu fui barrada no Lapa 40 graus. Estava sem a identidade, é mole? Por sorte a moça da porta me reconheceu, pois eu havia ido lá recentemente, e me deixou entrar.” Eu ri e respondi: “Eu quase fui barrada no Carioca da Gema uma vez. Mas eu mostrei a identidade e me deixaram entrar. Mas no Pátio Lounge, foi por muito pouco! Estava só com a cópia, e o cara não queria aceitar. Eu insisti, e ele perguntou se podia ligar pra polícia pra confirmar minha carteira. Eu disse pra ele ir em frente, e ele resolveu me deixar passar!”


Acho que uma de nós disse: “Isso que dá parecer novinha”, mas não tenho certeza. Mas foi isso o que eu pensei. E achei graça. Acho que a Rafa também, porque ela riu.


Fora dias como esse, que são raros, eu nunca converso com a Rafa. Nem com as outras baristas. Eu fico ali, bebericando o meu café durante um ou dois minutos, pensando na vida. É o meu “momento de reflexão au milieu du jour”... Fico observando os doces também. No balcão do café tem vários doces portugueses muito bonitos. Ao lado, numa vitrine, tem umas tortas, lindas também. Não sei se são bons, nunca provei. Nunca consumi nada dali a não ser o café espresso.


Além de olhar os doces, eu também olho muito as pessoas. Cafeterias são excelentes lugares para o exercício da observação. Já percebeu como a maioria dos frequentadores de cafeterias do Centro são homens, normalmente de meia idade para cima? Pois é, acho que mulheres jovens não curtem muito café. Eu curto. Aliás, amo.


Geralmente eu sou a única mulher da minha faixa etária nas cafeterias. No caso desta que eu frequento, somos duas, eu e a Rafa. Então eu fico ali, no balcão, com meu jornal debaixo do braço, meus cabelos curtos cheios de pontas, minha cara de 16 anos e meu Ray Ban preso na blusa, olhando as pessoas e os doces. E atraindo os olhares dos curiosos, porque eu sou um peixe fora d’água. E eu acho graça.


Café terminado, energias repostas, olhos abertos, eu me despeço. “Tchau, gente, obrigada!” As baristas e garçonetes que ouvem me respondem baixinho. A Rafa não, ela diz, com clareza: “Tchau, até amanhã!” Porque ela sabe que eu sempre volto no dia seguinte.

3 comentários:

emmyfreitas disse...

Eu sei exatamente o que vc quis dizer com tudo isso.


Você conseguiu trazer toda a nostalgia que se espera ter num momento como esse.

Gabriel Machado disse...

Julia, vc descreve muito bem as coisas, a vida, o clima dos lugares, as pessoas, a vida... ou seja, uma ótima cronista!

Deu até vontade de ir na cafeteria! hehe bjs

Taíssa disse...

Ahazzzou, Rafa!!!!!! Se joga, beeeeh!

Hehehe...

A rotina sempre choca quando analisada de perto. E, pra quem escreve (acredito que com você também seja assim), é delicioso observar as diversas reações e interpretações de uma pessoa em relação ao que se escreve. O que toca na gente, pode tocar o outro de alguma forma, igual, parecida... pode significar algo para mais alguém... Bem, na minha opinião, a crônica é o gênero que mais toca. O cotidiano mexe muito comigo... Quase cósmico, rs.

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.