O Rebouças no dia mais feliz da minha vida (2007)Ah, o túnel Rebouças! A via mais encantadora da minha maravilhosa cidade! O calcanhar de Aquiles do centro produtivo do Rio de Janeiro. Qualquer arranhãozinho e adeus equilíbrio urbano, tal a nossa falta de opções para escoamento do tráfego.
Hoje um caminhão da Comlurb resolveu tombar dentro do túnel, paralisando todo o trânsito da Zona Sul e das principais vias de acesso ao Rio durante cerca de três horas. Mas os reflexos desse desastre se fizeram sentir ao longo de todo o dia. E como se não bastasse, uma série de acidentes e um calor dos infernos contribuíram para deixar os engarrafamentos ainda mais insuportáveis.
Obviamente, como não poderia deixar de ser, hoje eu precisei ir ao Jardim Botânico. Eu moro na Zona Norte – muito alegremente – e não sou frequentadora assídua da Zona Sul além-Metrô, confesso. Mas sempre que eu preciso ir ao bairro do Jardim Botânico, o Rebouças decide ficar magoado.
Mas hoje eu não fui pega desprevenida! Ouvi no rádio como estava a situação e resolvi ir de Metrô. Pelo menos até Botafogo, meu trajeto estaria garantido.
Ledo engano, o Metrô estava lento como a peste. Acho que deu congestionamento de trens, ou algo assim. Sei que ficamos parados na Praça Onze por uns trezentos anos, esperando não sei o quê. Eu e mais uma multidão, é claro. E um ar condicionado que não dava vazão.
Apesar disso, eu não tinha do que reclamar. “Poderia ser pior”, pensei. “Poderia estar chovendo torrencialmente.”
Como em 2007, quando uma barreira do Rebouças desabou, causando caos na cidade. Lembro da Rua Jardim Botânico completamente engarrafada, parada. E eu caminhando debaixo do temporal, com uma mochila pesada nas costas, do Jardim Botânico (leia-se, o parque) até a estação do Metrô de Botafogo, tentando chegar a uma consulta médica no Largo do Machado. E, mais tarde, a pé dentro do túnel que leva até o Bairro de Fátima, tentando chegar ao estágio. Nunca andei tanto na minha vida. Foi tenso.
Arrepios na espinha à parte, a viagem de Metrô estava sendo tranquila, apesar da lentidão. No entanto, é lógico que o Rebouças não me pouparia de um desgosto num dia como esse.
Eu estava de pé, lendo meu jornal, de frente para os assentos do corredor. Duas senhoras idosas, uma mulher jovem e um rapaz de seus vinte e poucos anos ocupavam os lugares. Uma moça chegou perto dele e pediu, com um sotaque que parecia nordestino:
- Com licença... Será que você poderia ceder o lugar para a minha mãe sentar? Ela tem um problema na perna, não consegue andar direito...
O rapaz, que estava com um fone em um dos ouvidos, ergueu o olhar lentamente para ela, de maneira indiferente, fingindo não entender o que ela dizia.
- Por favor, moço... desculpe incomodar, mas minha mãe tem um problema na perna... – pediu de novo a moça.
O jovem fez cara de ódio. Juntou suas coisas lentamente, transparecendo irritação, e levantou, dizendo rispidamente:
- Tudo bem, mas as coisas não são assim não, viu, colega? A gente não vai pedindo pra alguém ceder o lugar assim não... Tem que ter mais educação.
A moça, visivelmente constrangida, tentou amenizar a situação:
- Desculpa, moço... E desculpa por ter pedido num português assim meio diferente...
O rapaz se afastou, emburrado, e repetindo: “Não é assim não, colega...” A moça chamou a mãe, uma senhora idosa, que mancava. Ela se sentou e disse:
- Eles não entendem. Isso aqui não é velhice não. Não é por velhice que a gente tem que sentar. Isso é uma doença, qualquer um pode ter, seja velho ou jovem.
Sim. Apesar de não ter chovido, de eu não ter pego trânsito, não ter morrido de calor e ter chegado na hora ao trabalho, eu tive que presenciar essa cena ridícula de falta de educação. Um garotão reclamando de ter que ceder o lugar a uma idosa manca. E a filha, constrangida. E o pior: se desculpando não só pelo pedido, como por seu sotaque. É o fim da picada, colega...

2 comentários:
Acidentes/incidentes no Rebouças são meu maior pesadelo. Eu, que estudo na Gávea, preciso que tudo esteja perfeito para conseguir chegar em casa. Caso contrário, como foi em 2007, conseguiria ficar SEMPRE praticamente umas 3 HORAS até chegar na Tijuca. Nessas horas é que eu queria ter um helicóptero!
ah, é a Marcelinha nesse comentário!
(é que tem um blog do CPTV no blogger, não percebi que tava logado!)
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