"O quarto", de Vincent Van Gogh
“For you I was a flame
Love is a losing game”
Lá está ela: a dor. Ela não quer ir embora. Pode estar cada dia mais fraca desde que eu parei de alimentá-la, mas insiste em ficar. Acho que ela se sustenta das lembranças boas que eu tenho de você. Já pensei em jogá-las fora, lembra? Mas mudei de ideia. Que bom. São bonitas, ficam bem na minha estante, ao lado das flores que eu te dei. Espero que não tenha se livrado das suas. Lembranças, digo, não das flores. Essas já devem ter morrido, junto com a nossa história.
Acho também que a minha dor se alimenta desse sentimento lindo que eu ainda tenho. Sei que você não quer que eu diga que é amor, então não vou dizer. Esse eu também não consigo jogar fora, e não porque eu pense que você pode querê-lo de volta, não é isso. Sei que não quer. Mas é que ele não me larga, não sei por quê! Quando tento me livrar, ele se agarra em mim, do mesmo jeito que a gente se agarrava feito dois pólos opostos de um ímã que ninguém consegue separar. Opostos. Pois é. Eu sempre disse.
Esse sentimento é diferente daquele que eu te confessei naqueles dias idos. Não é mais o amor de quem quer crescer a seu lado, estar junto, te proteger, te levar mensagens de esperança na hora do medo. Aquele era um amor impossível, por mais que você não acredite na existência do amor se ele é impossível. Acho que por isso mesmo ele se retraiu para um cantinho, no fundo do meu quarto, bem longe da estante.
O sentimento de agora é mais suave, sabe que não é correspondido. É um amor por tudo o que você representou. Suas olheiras, seus cabelos ralos, seu sorriso de gato da Alice... o cheiro de cigarro que ficava na sua barba quando você fumava. Seu toque, seu abraço, seu calor... suas mãos, seus carinhos, sua voz grave no meu ouvido. Sua gata de estimação e o fascínio que ela tem por você.
Sua intensa dificuldade em tomar uma decisão até para escolher as coisas mais simples. Sua mania de ser profundo com os assuntos mais banais. E a maneira que você tinha de me fazer sentir a pessoa mais fútil do mundo nessas horas. Sua insistência diária em frisar a nossa diferença de idade e falar dos males “da minha geração” – o estranho incômodo que te dividia entre desejo e decepção.
A “minha geração”... Uma geração doente, mas talvez não tanto quanto a sua. Enfim, eu sei que foi nesse abismo que eu esbarrei na minha própria danação. Eu, uma menina que você fez acreditar ser mulher, tropecei e caí nessa armadilha do deslumbramento pelo “cara mais velho”, aquele verdadeiro lobo mau que desvirtua a Chapeuzinho de seu caminho seguro pela estrada afora. Essa criança boba, que não sabe nada da vida, arriscou e sucumbiu aos encantos do sedutor, cheio de ar paternal, cujas marcas no corpo já contam uma história. Uma história pela qual minhas páginas em branco tanto se interessaram.
Mas apesar de saber disso, a minha saudade me invade à noite ou sempre que meu olhar se perde durante uma longa espera. E aí, minha alma revive a paixão maravilhosa que a gente tinha, aquele tesão enorme que fazia a minha pele grudar na sua e não querer mais soltar. Ah... a sua pele...! Nenhuma diferença – de idade ou de opiniões – naquelas madrugadas cheias de música e gemidos à luz de uma lâmpada de estudos. E o beijo. Aquele beijo que eu nunca vou conseguir esquecer. “O melhor beijo do mundo!” Lembra que uma vez eu disse isso? É, não... acho que não vai lembrar.
Sabe, eu acho que, na verdade, não é de nada disso que a minha dor se alimenta. Deve ser da saudade. Essa, quando passar, vai matar a dor de fome. Aí eu quero ver. No dia em que isso acontecer, vai ser muito bom. Pois aí só vão sobrar as boas recordações a me arrancarem sorrisos de canto de boca. E talvez, cristalizado no fundo do armário, restará o amor no qual você não acredita.
Mas eu sim. Porque esse amor não nasceu do tempo da nossa convivência ou do quanto eu conheço você; não nasceu por causa das suas qualidades ou das semelhanças entre os nossos pensamentos. Nasceu do que a gente tinha, do que existiu, e tão somente disso – pela pessoa que você é, e pelo que eu acreditei que poderíamos ser.


3 comentários:
Depois de tanto tempo...
Acho que só um amor perdido pra despertar na gente a vontade de se expressar.
É. Sei bem como é isso.
Beijos, meu amor.
Melhor que esse texto, só mesmo a conversa sobre ele durante um almoço e um café com a autora deste blog.
Por favor, sem suco de uva. Um quadro Van Gogh ambienta bem melhor!
Bjs!
"Porque esse amor não nasceu do tempo da nossa convivência ou do quanto eu conheço você; não nasceu por causa das suas qualidades ou das semelhanças entre os nossos pensamentos. Nasceu do que a gente tinha..."
Um amor que nasceu antes do tempo, que não esperou - nem pediu para nascer. Um amor pré-maturo, pode-se dizer, mas não pelo nascimento, mas pela sua concepção. E quando morre esse amor, outros dois (re)nascem: o amor por nós mesmos e o amor pelo que deixamos de viver. Como disse uma vez a uma outra amiga: quando nos desvencilhamos do passado, é como se fosse um duplo suicídio: a morte do que fomos e a morte do que seríamos. Talvez por isso a vida seja mesmo um milagre.
Beijo
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