O Haiti também é aqui
O sol se levanta e, com ele, saímos da cama entediados, movidos pela rotina, a almejar o fim do expediente e o retorno para casa, a volta da noite e da cama. O ano começa, em março, depois do Carnaval, e já aguardamos ansiosamente a chegada do Natal, do Réveillon, dos recessos, dos presentes e da promessa de um novo ano, com novas promessas que não serão cumpridas. Desesperançados, elegemos nossos governantes, torcendo pelo fim de seus mandatos, quando concluiremos, como previmos, que nada de bom foi feito. Casamos com o frio na barriga da incerteza, nos perguntando quando a paixão vai acabar, quando vai cair na rotina, quando vamos nos divorciar. Criamos nossos filhos ansiosos – para o bem e para o mal – com o dia em que nos deixarão e seguirão suas vidas com os próprios pés; e nos preocupando a cada saída, passando as noites em claro até que eles voltem da boemia em que mergulham a partir da adolescência.
Passamos a vida a olhar para o relógio, desejando as próximas férias, os próximos verões, as próximas Copas do Mundo, os próximos aniversários. Aguardando – e temendo – o fim. O inevitável e inexorável fim. A morte? Sim, esta que está presente em todos os momentos, certa em qualquer vida. Mas também o fim do mundo. Não o lendário abismo que traga os navios desavisados. E sim aquele anunciado pelos mendigos loucos. Aquele do livro do Apocalipse, proclamado por Nostradamus, previsto pelos povos pré-colombianos. Aquele que talvez será trágico, cheio de catástrofes climáticas, gritos, guerras, sofrimento. E que esperamos nos trazer a salvação, pela força da nossa fé.
Só que o mundo já acabou. Muitas e muitas vezes. Acabou com o sangue derramado pelas guerras civis esquecidas, com a luz e o calor dos cogumelos atômicos, com a força das epidemias que se espalham na velocidade da globalização, com as águas das chuvas que levam encostas e das ondas que invadem cidades, com a fúria de aviões usados como armas. E na tarde de 12 de janeiro de 2010, o fim chegou outra vez.
Chegou sacudindo os corpos, envolvendo tudo em uma névoa branca, em meio às vozes suplicantes de um povo expressivo, gestual, musical demais para conter o próprio lamento. O concreto rachou, as lajes cederam e cidades inteiras vieram abaixo em minutos, soterrando mais de 50 mil histórias. E quando a poeira baixou, levantou-se o caos, junto com as lágrimas e o mais extremo desespero humano. A situação limite que leva crianças a se banharem nas águas que escorrem pelos meios-fios e os adultos a celebrarem missas e rituais vudus em praça pública. Suplicando a forças superiores o perdão dos prováveis pecados que atraíram aquela verdadeira punição; ou a lição a ser aprendida, que talvez fosse o motivo de tal tribulação.
A Terra pôs o dedo no formigueiro, destruiu suas galerias e dispersou uma massa confusa de gente sofrida e lutadora. A multidão caminha perdida por ruas repletas de corpos empilhados, que se decompõem junto com a frágil estrutura do país mais pobre das Américas. O cheiro de urina e de morte se mistura ao clamor dos sobreviventes que há dias não veem a luz. E naquela língua ritmada e estridente, naquele francês remodelado pelo sol dos trópicos, as mulheres rezam, incorporam, imploram por bênçãos no meio da mais completa desolação.
A ajuda chega tímida e cai dos céus como se alguém tivesse ouvido aquelas preces. Mas em instantes o maná some, tragado pela violência da luta pela vida. Ao vencedor as batatas – a filosofia do fim do mundo. No caso, ao vencedor a água, artigo de luxo quando toda a dignidade humana se esvai. O cenário é o da contradição: de um lado a crueldade da lei da selva e de outro a inexplicável e instintiva solidariedade. A alegria de ouvir um choro ou um grito sob vários palmos de terra e escombros. O regozijo daqueles que já não têm nada além da esperança e cavam com as próprias mãos, até que elas sangrem. E desse afã por resgatar um parente ou mesmo um desconhecido, tira-se forças, porque o corpo quase desfalece sem alimento.
Nos bolsões de pobreza, o racionamento e a escassez vêm acompanhados do medo da volta da guerra, trazida pelos oportunistas que retornam aos redutos do crime. Nos hospitais, feridos e despossuídos se acumulam em busca de conforto, de algo que amenize sua dor, nem sempre física. A fome já começa a matar. Morrer de fome. O degrau mais baixo na escala dos possíveis fins às trajetórias humanas. A mais devastadora forma de solidão que um corpo pode encontrar no seu instante derradeiro. A maior perturbação a atingir a alma que está prestes a se libertar.
Por todo o planeta, a compaixão de quem não pode nem imaginar o que seja uma tragédia desse porte. O mundo volta seus olhos egoístas para aquele povo que há séculos sofre calado, mas que, hoje, por causa da natureza, é o centro das atenções. Uns se mobilizam para ajudar, outros tantos se promovem por meio desse súbito acesso de solidariedade, e no fim das contas não se sabe quais são de fato as atitudes louváveis. Se é que se pode pensar nisso num momento em que o que vier, é lucro. Para todo mundo, aliás. A imprensa se dirige em peso para essa metade de ilha, ignorada pelo noticiário na maior parte do tempo, para enfiar seus microfones e gravadores na cara dos capacetes azuis, em busca de relatos fidedignos do espetáculo do horror. Queremos saber, todos queremos saber. E mostrar. E ver. E, nesse momento, a invasão das câmeras toma uma forma paradoxal e não se sabe qual deve ser a medida e a forma de contar aquelas histórias. Não se sabe mais o que é exploração do sofrimento alheio e o que é função social, no sentido de tentar atrair mais e mais ajuda para quem está necessitado de tudo. Caem os ternos e as gravatas e o texto empertigado e ficam apenas os testemunhos.
A imprensa poderia simplesmente ligar câmeras e microfones e deixar que as máquinas fotográficas disparassem sem parar. O cenário horripilante falaria por si. A humanidade veria a peregrinação de quem perdeu tudo e não tem mais para onde ir; assistiria ao trabalho de homens e mulheres que dedicam suas vidas a salvar e cuidar de outras, em fardas, jalecos ou trajes ritualísticos; acompanharia a desova de milhares de corpos em uma vala comum, como se ali não houvesse histórias, individualidades, unicidades que merecessem ser veladas e choradas; e poderia tomar como exemplo esse povo de fibra, discriminado, lutador, que se move como se estivesse dançando e fala como se estivesse cantando. Um povo embrutecido, capaz de fugir do próprio país para tentar a vida em outro lugar, desempenhando qualquer função em troca de qualquer salário, a fim de sobreviver com um pouco mais de dignidade. Mas que mesmo tendo que conviver com a pobreza e as catástrofes naturais de uma terra instável, fala um idioma carinhoso que transformou todas as mulheres em mamas e todos os homens em papas.
Desde o dia 12 de janeiro, lamentamos a chegada de mais um fim do mundo, em meio aos outros tantos que aguardamos e tememos, sempre nos esquecendo de aproveitar nosso presente. Nos nossos ouvidos ecoa a voz da mulher que filmou a capital de seu país arrasada e, como numa súplica ao resto da humanidade, exclamou em inglês, depois de dizer várias frases em creole: “o mundo está acabando!”


2 comentários:
Nessa tragédia há duas mortes: a morte de quem mata e a morte de quem morre. Morrer de fome é quando não se tem mais alternativa, é desespero. Matar de fome é o desespero do desespero: a loucura do sofrimento. Sobreviver, nesse caso, é viver sobre o outro. O povo que termina de se matar. Uma tristeza que não sai nos jornais: o abalo velado.
CLAP!CLAP!CLAP!CLAP!!
Magnifico, Belíssimo texto, embora a situação nao tenha nada de bela, muito bem escrito, ótimas as analogias, comovente.
Parabéns!!
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