- Bom dia. Vamos para o Morro da Conceição, no Centro. O senhor conhece?
- Não, já ouvi falar, mas nunca fui lá.
- É só pegar a Rua do Acre, ali na altura da Uruguaiana e entrar à esquerda na subida. Pode deixar que eu mostro o caminho.
- Pois não, senhora.
- O Morro da Conceição é a minha mais recente descoberta fascinante dessa cidade.
- É mesmo? Por quê?
- O senhor vai ver. Lá em cima é lindo! Casas de mais de cem anos, algumas muito bem conservadas, ruas de paralelepípedo, uma tranquilidade...
- Mas lá não é perigoso não?
- Que nada... Lá em cima tem um forte do exército com vigilância 24 horas... E é um lugar residencial. Os moradores ficam na rua até tarde, inclusive crianças e adolescentes. Parece uma cidadezinha de interior.
- Que maravilha, hein? É lá que a senhora mora?
- Não. Um amigo meu.
- Poxa, quem iria imaginar que existe um lugar assim em pleno Centro do Rio...
- E o senhor sabe que lá foi um dos primeiros lugares colonizados na cidade? É um local de grande riqueza histórica...
- Tem ares de Rio antigo?
- Exatamente! Um Rio pré-Pereira Passos, do século XIX. Um Rio de Machado de Assis.
- Nossa, posso até imaginar. A senhora é historiadora?
- Não, jornalista. Ou quase-jornalista. Meu diploma está a uma monografia de distância de mim.
- Ha ha ha ha! Mas com o fim da obrigatoriedade do diploma, talvez a senhora já possa se considerar uma jornalista!
- Hum, é mesmo, não tinha pensado nisso! Ha ha ha ha! Essa foi boa...
- A senhora não se incomoda com isso não? Ter passado anos na faculdade para sair com um diploma que não serve de nada?
- Mas diplomas em si não “servem” de nada. Eles apenas comprovam que você foi matriculado em determinada instituição durante “x” anos. O que se aproveita desses anos é o que de fato faz um profissional. Eu não troco o ambiente universitário por nenhum pedaço de papel no mundo. A faculdade só dá os meios para que o próprio estudante corra atrás da sua formação.
- Pode ser. Nunca tinha visto por esse lado. Eu não tive oportunidade de fazer faculdade, sabe? Mas bem que eu gostaria de ter feito. Por exemplo, eu sou um cara que gosta muito de História, como a senhora. Mas às vezes eu sinto falta de uma formação mais sólida. Só ler, por conta própria, não é a mesma coisa. Sinto falta de trocar umas ideias.
- Justamente, é disso que eu falo. O senhor gosta de Machado de Assis?
- Só li um livro dele até hoje. Aquele da Capitu, “Dom Casmurro”. Gostei bastante. É uma aula de História e de Português.
- É verdade! Eu adoro Machado. Minha monografia é sobre as crônicas dele.
- Sério? Puxa, crônica é um troço muito bacana...
- Também acho. Tem um quê de jornalismo e um quê de literatura. E um quê de táxi também.
- Como assim?
- Ora! Os taxistas são grandes contadores de histórias, ou não? Como os escritores, os cronistas, os jornalistas. A crônica é como um táxi: a gente entra nela por breves instantes, ouve uma boa história e vai embora. E nesse meio tempo ainda é transportado de um lugar a outro.
- Gostei disso! A senhora trabalha com crônica?
- Não. É só o tema da minha monografia. Eu trabalho com televisão, na editoria local. Tem alguma semelhança com ser cronista também, não é? Contar histórias da cidade...
- Deu para perceber esse seu lado quando a senhora entrou no táxi.
- (Agora o senhor pode entrar nessa rua e subir até o final.) Pois é, eu gosto de contar histórias. Mas não sou muito boa de inventar não. É fácil me pegar na mentira! Ha ha ha ha! Meu negócio são as histórias da vida real. Talvez por isso tenha escolhido essa profissão.
- Vou dizer uma coisa: sou um grande observador da vida real. Já vi e ouvi de tudo dentro desse táxi. E com certeza não há trama de novela ou de Machado de Assis que se compare ao que se passa nesse mundo de Deus.
- É verdade, penso o mesmo. Pode parar aqui. Aí vai.
- Obrigado, senhora. Realmente aqui em cima é muito bonito. Nunca imaginei que fosse assim!
- Não é incrível?
- Com certeza! Vá com Deus e boa sorte aí na contação de histórias!
- Obrigada! O senhor também!
* Essa história não é verídica. Este foi o texto da minha aprovação no Curso Abril de Jornalismo 2010, de tema "Quem sou eu e por que quero trabalhar com jornalismo". Dedicado a uma pessoa especial e a um ano arrebatador.
domingo, 3 de janeiro de 2010
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5 comentários:
Isso é jornalismo, é literatura, e sem dúvida é você! Muitoorgulho do seu talento. Torcendo sempre por vc, não importa a distância...
"A crônica é como um táxi: a gente entra nela por breves instantes, ouve uma boa história e vai embora. E nesse meio tempo ainda é transportado de um lugar a outro."
Sutileza e delicadeza para sentir e transportar, dessa vez para o papel, as sensações de ouvir e de escrever uma boa história. Nós fazemos a parte fácil - e tão gostosa quanto - que é lê-las. Seu texto também é um embarque para outro lugar, até então desconhecido, mas que fica dentro de nós. Obrigado por fazer me conhecer melhor nessa viagem fantástica, que é saber de si pelo outro. Talvez essa a maior graça ao lermos e escrevermos.
beijo
Fiquei com vontade de conhecer esse "Morro"...
Amei a crônica! Lindo texto! Estou esperando o próximo!
Bjinhusss meu,linda!
Oi Julia! Adorei o texto. Você é orgulho da ECO. ehehe
Boa sorte nessa empreitada. Estamos torcendo por você.
Beijos
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