domingo, 14 de fevereiro de 2010

Paulistanas: "O Irã precisa de ajuda"


Got it?



Lá estava ele, como todas as noites, em frente ao computador. Trabalhava em horário chinês. A sede de sua empresa de importação e exportação ainda era a China, mas tentava transferi-la para o Brasil. Afinal, viera para ficar. Mas enquanto os trâmites burocráticos dificultavam sua vida, seu expediente era de madrugada. Aproveitava para aprender mais sobre esta terra e procurar a casa dos seus sonhos, possivelmente nos arredores de São Paulo.



Eu queria muito saber tudo o que Josh pudesse me contar sobre o Irã, de onde fugiu com a mãe e a irmã aos 17 anos. Começava a guerra contra o Iraque, e seu pai, veterinário do Exército, teve que ficar para lutar. Em seu refúgio, na Califórnia, Josh fez faculdade e abriu sua empresa. Anos depois, acabou indo para a China, onde conheceu sua esposa e se estabeleceu. Adeus Green Card suado – mais de seis meses fora de território americano é rua. Para reaver o documento, é preciso iniciar o processo do zero. Josh desistiu. Não quer mais voltar para os Estados Unidos, para junto da mãe e da irmã. Muito menos para seu pai, que jamais deixou seu país. “O Irã não é bom. Não há liberdade. Agora é a vez da América do Sul. O Brasil é o novo mundo. Nada de brigas com outros países, nada de guerras. O futuro está aqui.”



A pergunta que me abriu as portas da Pérsia foi a mais cretina possível: “o que você acha do seu presidente?” “Ele vai destruir o Irã,” respondeu Josh. Dava para sentir o nervosismo em seus gestos e no tom de sua voz. Parecia agoniado com a possibilidade de seu país afundar ainda mais. “O Irã precisa de ajuda, tem que se aproximar de outros países. Tem que haver mais liberdade e verdadeira democracia.” Para Josh, a comunidade internacional não entende que novas sanções só vão prejudicar o povo iraniano. Nesse sentido, sente-se até aliviado com a posição do Brasil de apregoar o diálogo.



“Esse presidente vai cair, ele não tem apoio popular.” Josh garante que a população o odeia, e que, se sua hostilidade e discursos levianos levarem o país a sofrer embargos, seus dias no poder estão contados. A maneira certa de medir a insatisfação do povo com seu governante está nas táticas de desobediência civil, aprimoradas após a Revolução. As pessoas escrevem frases de oposição ao governo nas notas de rial, a moeda do Irã, e as fazem circular com o dinheiro. Como não é possível identificar os autores da ação, ninguém pode ser punido. Simplesmente genial. Afora isso, ainda persistem as antigas táticas de lutar contra a opressão: as mulheres se enchem de maquiagem e exibem um pouco dos cabelos para mostrar sua insatisfação com o véu; e as festas em casa permitem que as pessoas sejam elas mesmas, falem à vontade e manifestem sua individualidade por meio de roupas diferentes das que usam nas ruas.



Desde a Revolução, em 1979, os iranianos lamentam a sorte de viver em um país para o qual o mundo inteiro virou as costas. O movimento xiita derrubou uma ditadura alinhada com o Ocidente para implantar outra, islâmica e radical. Os árabes sunitas, apoiados pelos Estados Unidos, se voltaram contra o Irã, até hoje praticamente isolado no Oriente Médio. A Pérsia caiu em um limbo – não é árabe, nem judia, nem amiga dos americanos.



A baixa autoestima da população é resultado direto de anos de censura, guerra, radicalismo, rígido controle moral e uma economia em frangalhos. Agora, esse povo historicamente politizado – pelo menos na capital, Teerã – se vê às voltas com taxas oficiais de desemprego e inflação de mais de 10%, embora esta última já deva, na realidade, ter ultrapassado 20%.



“Por que ele diz que é preciso varrer Israel do mapa? Por que ele gastou todas as reservas deixadas pelo presidente anterior?” Josh se irrita com a postura belicosa e populista do líder do Irã. Chega a sentir saudades do regime do Xá, a monarquia derrubada nos anos 70. “Pelo menos havia alguma liberdade.” Hoje, só resta a amargura de mais de 70 milhões de iranianos céticos.



“Ninguém mais tem religião no Irã. Ninguém mais acredita em Deus. Todo mundo pensa que os iranianos são terroristas islâmicos radicais, mas isso não é verdade. Só o Estado se autointitula islâmico. Mas é oco.” Generalista e taxativo, Josh, na verdade, fala por si. Não consegue mais acreditar em Deus. Nem numa religião tão deturpada ao longo do tempo pelos mandantes de seu país. Ele garante que ninguém reza no Irã. Ninguém.



Para alguém que vem de uma terra que retrocedeu e parou no tempo, o Brasil é um grande exemplo. Afinal, aos olhos de Josh, o “gigante da América Latina” superou uma ditadura militar e crises econômicas para, finalmente, se tornar um país próspero, influente e democrático, ainda que com muita pobreza e desigualdade social. Foi Josh quem encerrou o nosso papo. “Ah, não quero mais falar sobre o Irã. Não sou mais iraniano, meus filhos não vão falar farsi. Quero ser brasileiro agora.”

1 comentários:

Bruno Quintella disse...

Ótimo personagem, texto interessante. Deu pra - tentar pelo menos - entender o que se passa na cabeça de um cidadão iraniano engajado e atento às mudanças do mundo. E como sofre esse povo.

Saudade de você, menina!

beijo enorme

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