domingo, 21 de fevereiro de 2010

Paulistanas: O cosmopolitismo


O universo é grande; e a alteridade, absoluta (Cartum do argentino Gervasio Troche)



A cozinha era tão cosmopolita quanto uma cidade como São Paulo pode ser. Uma mistura desnorteante de sotaques brasileiros – gaúcho, paraibano, pernambucano, carioca – e o inglês arranhado de todo mundo para conversar com os gringos – argentinos, alemães, e, é claro, o iraniano Josh e a chinesa Jessica. Mas não havia um real consenso sobre o idioma oficial daquele lugar, pois, muitas vezes, os brasileiros mudavam do inglês para o português, e os argentinos se dirigiam a nós em espanhol mesmo. Uma deliciosa Babel em que todo mundo se entendia se mal-entendendo.



Cada um veio com suas histórias. A paraibana trouxe o bebê para uma bateria de exames no Hospital das Clínicas. A criança nasceu com uma doença de origem desconhecida que fibrosa seus pulmões, dificultando a respiração. Difícil acreditar, no entanto, que uma doença tão grave acometia aquele pequeno Don Juan, sedutor de nascença, com seus olhos de bola de gude e seu sorriso apaixonante. Sempre estendendo as mãozinhas na direção das moças bonitas. Nunca reclamando ou chorando. Um verdadeiro cavalheiro.



Mas não era para menos, ele teve a quem puxar. Não falo da beleza de sua mãe-e-pai, embora esta seja indiscutível. Falo da energia e da presença de espírito daquela mulher forte, cujo único homem na vida é um bebê frágil e adorável. Com sua aura leve, a jovem mãe de dois filhos enfrentou a biopsia de seu caçula para descobrir que sua doença só foi conhecida pelos médicos há apenas cinco anos. E ainda exclamou, com alívio: “De certo modo, ainda bem que foi nele que essa doença apareceu. Já imaginou se tivesse sido na mais velha? Seria uma doença totalmente nova, muito mais difícil de tratar.”



Com os argentinos o papo era outro. Mais mundano, mais trivial. Eles falavam mal dos brasileiros e davam em cima das brasileiras que, por sua vez, falavam mal dos argentinos. Tudo na mais perfeita ordem. Às vezes a conversa podia descambar para um assunto mais sério ou, pelo menos, mais delicado. Do tipo: “o que você acha dos argentinos?” Pergunta capciosa a qual me apresso em responder: “Ora, nunca convivi com argentinos para saber!” Ao que eles rebatem: “Mas o que os brasileiros realmente acham dos argentinos?” Droga, não vou me livrar tão fácil. O ideal é ser sutil. “Já me disseram que os argentinos são ótimos, com exceção dos portenhos, que são muito... (metidos, mas é melhor não dizer isso) ...fechados.” Sorriso irônico. “Nós somos portenhos.” Ufa.



Certa vez o debate foi sobre as diferenças entre o Brasil e a Argentina, e a visão que nossos “hermanos” têm de nós. Caprichei no meu discurso repleto de referências, porém genérico quando eu tocava um assunto do qual não entendia. Farsa completa que sou, acabei convencendo aqueles três, que mais tarde descobri serem cientistas políticos. A resposta do lado de lá foi quase um desabafo. “Vemos o Brasil como o irmão mais velho que deu certo. E sempre nos perguntamos como ele pode ser menos politizado, menos culto e, ainda assim, mais rico que nós. Vivemos ditaduras e passamos pela redemocratização mais ou menos nas mesmas épocas. Mas, embora tenhamos tentado, não conseguimos chegar onde o Brasil hoje está.”



Não sei se posso dizer se esses três são do time que supervaloriza o Brasil, mas tem gente que realmente acha que o grande pândego do Atlântico Sul tem algo mais a oferecer. Josh e Jessica, por exemplo, por que deixaram a China? Simples: “A China é muito chata. Os chineses parecem galinhas – acordam com o Sol e vão dormir quando escurece.” Nada de vida noturna, nada de crime, nada de novos clientes nos restaurantes após oito da noite. “Não há nada. É tranquilo demais”. Aparentemente, o iraniano fugido da guerra estava em busca de emoção. Acho que veio ao lugar certo.



Aquela cozinha, por si só, era um grande agito. Um caldeirão de histórias, línguas, culturas. A internet wi-fi, que se restringe àquela área da casa, conecta fisicamente as pessoas mais diferentes, que vão a São Paulo “tentar a vida”: estudar, trabalhar, fazer um tratamento médico, buscar um emprego, instalar uma empresa. Dos que permanecem aos que se vão depois do Carnaval. Reflexo da cidade que tudo oferece.

2 comentários:

Rodrigo Cruz disse...

Muito bom o texto. O que eu achei mais interessante foi a visão dos argentinos que tivemos trajetórias parecidas, porém hoje o Brasil é mais forte e rico, apesar de menos letrado e político.
O eu gosto de restaurante ou bar (principalmente) é a facilidade a esses tipos de dialogos, diversos, cosmopolitas. As vãs filosofias de bar são as melhores, as discussões sem fundamento são ótimas, a vulgaridade ou o requinte dos assuntos é algo mágico e maravilhoso para quem aprecia uma boa conversa.
Muito boa incurssão à cozinha.

bruno disse...

"Com os argentinos o papo era outro. Mais mundano, mais trivial. Eles falavam mal dos brasileiros e davam em cima das brasileiras que, por sua vez, falavam mal dos argentinos. Tudo na mais perfeita ordem."

Tapinha com luva de pelica, elegante, sutil e com humor inteligente. Boa!

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