Imagine o lugar mais fantástico que conseguir. Imagine o silêncio do topo do Everest, a desolação do deserto do Saara, a imponência da Muralha da China, o mistério da Ilha de Páscoa, a exuberância da Floresta Amazônica, a amplidão do universo visto da Lua. Imaginou? Pois nada, absolutamente nada disso chega aos pés do lugar mais fantástico que existe. O lugar onde tudo acontece, onde a vida pulsa, onde a realidade se desdobra.
A rua. É lá que a massa encontra o indivíduo, que o jovem encontra o velho, que o pobre encontra o rico. É lá que a fama se dissolve no anonimato, ou se destaca dele; que o um se torna vários; que as personalidades se pasteurizam. A quietude da rua é absoluta em seu constante e ensurdecedor burburinho. A alegria da rua é o sangue bombeado por suas veias de dor. Agitação, delírio, um mar de sensações ignorado pelos passantes. Nada, absolutamente nada é mais fantástico do que essa complexa trivialidade.
A cidade do Rio de Janeiro celebra a rua todos os dias. Nem a violência, nem a desordem, nem os congestionamentos, nem as enchentes tiraram os cariocas das ruas. O morador do Rio é sedento da rua, quer ser sugado por seu redemoinho, dominá-la, não importam os riscos. Tudo na rua o atrai: o bar com mesas do lado de fora, o calçadão, os blocos, os mercados a céu aberto. Até quando tenta escapar do transtorno da multidão e do cheiro de urina dos cantos, a obrigação da rotina continua lançando-o no meio do caos dos transportes públicos e do ir-e-vir dos formigueiros humanos.
Deve ser por isso que, de vez em quando, a cidade se torna palco de alguns “fenômenos de rua”. A população toma de assalto o espaço público, de modo arrebatador e voraz, contraditório e, muitas vezes, um pouco difícil de explicar. A rua e o povo se autopresenteiam com essa forma empacotada e perfeitamente acabada do fantástico manifesto, o ápice do fantástico urbano, que depois torna a se diluir no dia a dia.
Foi assim naquele 17 de março. Milhares de pessoas. Bandeiras da pseudoesquerda brasileira. Trios elétricos. Músicos e globais. Juventude aos berros, discursos políticos vazios. “O que é bom pro Rio, é bom pro Brasil!” Balões nas cores do arco-íris, drag queens. Sindicatos, partidos, movimento pela diversidade sexual, movimento estudantil. Curiosos nas janelas. Governadores, prefeitos, senadores. Quissamã, Campos, Rio das Ostras, Macaé. Niterói, São Gonçalo, Belford Roxo, Duque de Caxias, São João de Meriti e “o km 32 de Nova Iguaçu”, dizia uma faixa, em defesa dos royalties do petróleo para o estado do Rio de Janeiro.
A cara do Rio. Sim, sem dúvida um protesto com a cara do Rio. Alegre, emocionante, bem-humorado, cheio de contrastes e misturas. E paradoxal. Como o paradoxo de uma manifestação chapa-branca, plantada pelo governo estadual, de olho na eleição, sem cães de guarda ou bombas de gás lacrimogêneo. Como o paradoxo da causa, nobre para os que temem um desmonte da economia fluminense, menor para os que questionam o bom emprego dos royalties pagos atualmente. Como o paradoxo de uma multidão de supostos apaixonados pelo Rio que traz consigo circunstâncias e objetivos talvez não tão louváveis. Servidores públicos liberados do trabalho para comparecer, muitos jovens desinformados – certamente não todos – presentes apenas pela farra do evento, militantes de partidos políticos, um ou outro famoso fazendo seu marketing pessoal.
Sem dúvida, um bom bloco carnavalesco. Os alunos dos colégios estaduais corriam, pulavam e se abraçavam nas calçadas da Rio Branco. Quem saía do trabalho, parava para ver. E pensar como iria fazer para voltar para casa. A chuva se encarregou de transformar o sanatório geral numa grande sopa, um caldo de gente de todo tipo, uma enxurrada que correu pela principal avenida da capital fluminense acompanhando o ritmo da batucada do Afroreggae. Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil. Que país é esse? Alô, alô, W Brasil. Braços abertos sempre a esperar. Do Leme ao Pontal, não há nada igual. Mulher, mulher, mulher, mulher, mulher...
O petróleo é nosso, arrá, urru!
Em vez de acabar em pizza, o ato acabou em sopa, no caldeirão formado na Cinelândia em torno de um palco cheio de celebridades. Debaixo de muita água e de muitos guarda-chuvas, a esperança de que uma solução menos danosa para os estados produtores de petróleo fosse encontrada em breve pelo Congresso. Ou simplesmente a vontade de ver Fernanda Abreu, Toni Garrido e MC Sapão de graça. Ou melhor, às custas do dinheiro público.
Passam-se os anos, mudam as palavras de ordem. Acredite se quiser:



5 comentários:
Nossa, Julia! Muito legal seu texto! Muito bem escrito, gostoso de ler! Sobre o tal evento, como bairrista de MG, tendo a achar tudo um grande showmício, com credibilidade zero. Chamar aquilo de "protesto" beirou a má-fé. hehehe... Parabéns pelo texto! Beijo
Julia, querida, parabéns pelo blogue. O Rio infelizmente é cada vez mais da orla e da avenida. E perde cada vez mais o sentido de rua.
Beijo.
Crenato
Olha, como bom polemizador que sou gostaria de defender a passeata. Estive lá, inclusive encontrei a Julia, gostei do protesto.
Realmente, a maior mobilização foi a dos alienados e amantes de festa. O que não é desprezável, pois em todos os movimentos políticos importantes do nosso país estiveram sempre preenchidos por estas pessoas. Elas formam a massa.
Mas estiveram lá os que queriam justiça, os que estavam exercendo o dever cívico de protestar contra algo que atinge o povo ou minoria (nosso caso).
Fui porque não concordo com a emenda Ibsen. Não fiquei para os shows. Mas confesso que queria ter visto algum show interessante. Rsrs.
Volto a enaltecer a Julia por seu trabalho maravilhoso e criativo.
Beijo.
Confesso que foi uma grande festa...
Mas sabe que até fiquei um tanto quanto feliz? É difícil ver brasileiros lutando pelos seus direitos, por aquilo que acreditam, enfim... Como você disse, tinha gente que nem sabia o que estava fazendo ali, mas, sei lá... Acho que só de ter essa mobilização valeu. Quando foi a última vez que o povo se uniu? Nas "Diretas, já"?
Bonito, bonito.
Julia, fantástico teu texto. O que é bom para o RJ é bom para o Brasil sim. Ainda somos a referência mundial do país. E após as 3 pancadas que nos derrubaram (mudança da capital, fusão e brizola) temos mais que nos unir para resgatar a dignidade dessa cidade. O sr Ibsen é bem conhecido de outros carnavais. Beijão.
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