domingo, 7 de março de 2010

Paulistanas: Inferninho cultural



Bem-vindo à "casa de todas as casas", cenário do filme sobre Bruna Surfistinha.


O ex-go-go boy e ex-bartenter RG, que na verdade se chama Douglas Rodrigues, sai todo fim-de-semana com sua caravana uniformizada para dançar nos queijos da boate Love Story, no Centro de São Paulo. Depois de oito anos, se tornou figurinha carimbada no local. Organiza a galera por Orkut e MSN e ficou amigo de todos os DJs da casa, que frequentam a sua esquizofrênica loja na Zona Leste, mistura de videolocadora e pizzaria.



O policial C. A. M., esse sim só deu as iniciais porque não queria se identificar. Também frequenta a Love há oito anos, hoje em dia com bem menos assiduidade do que três anos atrás, quando ainda não namorava a linda modelo gaúcha que sempre está a seu lado. Amigo de todos os funcionários, C. chega cumprimentando todo mundo, rindo e fazendo piada. Do alto da cabine do DJ, traça para mim o mapa da pista de dança. Embora não sejam sempre as mesmas pessoas, os lugares já são mais ou menos consagrados a cada tribo: os gays ficam à esquerda, os asiáticos mais atrás, as lésbicas à direita, mais à frente. “Lá ficam os ladrões. Já deu para entender por que eu não quero me identificar?”, diz C., apontando para a direita, próximo à entrada.



Outra habitué, M. – que também quer guardar o anonimato – é esteticista durante o dia e garota de programa à noite. Ela vai à boate umas três vezes por semana para arranjar clientes, por conta própria, e complementar sua renda. A abordagem é simples – “você vem sempre aqui?” – aquele papo como quem não quer nada. Antes, M. trabalhava na Augusta, mas hoje prefere a Love porque “não tem aquele clima de puteiro”. Lá, ela se sente mais segura e livre, sem a pressão da obrigação de trabalhar. E, de fato, o lugar não é uma casa de prostituição, mas sim uma “balada” como outra qualquer.



Já o químico da Votorantim F. vai à Love Story nada menos que quatro vezes por semana. Esse eu não vou identificar por vontade própria, para proteger sua integridade física. Isso porque a namorada do sujeito odeia o lugar e se descobre que ele andou aparecendo por lá, é a terceira guerra mundial. Se bem que eu acho que depois dessa descrição, ela já vai ficar possessa. Mas por que ir com tanta frequência a uma mesma “balada”? “É o vício da dança”, alega o rapaz, que acha que a Love tem “o melhor som de São Paulo.” Eu até acredito no motivo dele, afinal o cara não parou de dançar nem enquanto falava comigo.



Essa é a Love Story, a única “balada” à qual eu pude ir nesse pouco mais de um mês de trabalho árduo na terra da garoa e das enchentes. Inferninho famoso, conhecido pela mistura de tribos na pista e grande quantidade de profissionais do sexo que vão para lá trabalhar ou simplesmente se divertir depois do batente. Aberta de segunda a sábado, da meia-noite até mais ou menos dez da manhã, a boate começa mesmo a “bombar” lá pelas quatro, quando já não dá nem para respirar de tanta gente.



O interior cafona mais lembra um clipe do Mötley Crüe, com sofás e cadeiras de estofamento vermelho, queijos e mastros de pole dancing, iluminação alucinógena e um globo espelhado sobre o meio da pista de dança. Os frequentadores, acho que também fazem parte da decoração. Tem os descolados de tênis da Riff dançando house, as piriguetes de sainha rodada e top de oncinha rebolando até o chão, uma quantidade razoável de figuras de óculos escuros, uns chineses que nem esboçam sorriso e os go-go boys voluntários que “perdem a linha” nos queijos, com a camiseta mamãe-sou-forte erguida até o pescoço, deixando o peitoral definido à mostra.



Mas confesso que esperava um ambiente mais escuro e viciado. Cheguei contaminada pelo que já tinha ouvido sobre o lugar. De fato, a Love Story tem uma imagem de antro da libertinagem em São Paulo, e parece que todas as reportagens feitas a respeito são no sentido de tentar mostrar que agora a boate é meio cult e atrai até famosos. Aliás, os funcionários, com suas gravatas vermelhas e suas caras de garçons da Cinelândia, se empenham em defender a casa: “Uma das ‘baladas’ mais tranquilas de São Paulo”, “quase não tem briga”, “muito respeito entre frequentadores e funcionários”, “esquece tudo o que você ouviu lá fora”.



Tudo bem que não é bem assim. À medida que a madrugada avança, os clientes chegam cada vez mais bêbados, saídos de suas “baladas” originais. A truculência dos seguranças, nas portas, vai aumentando. No sábado em que estive lá, chegou a sair uma briga no meio da pista, por volta das seis da manhã, apartada rapidamente pelos funcionários. Enfim, mazelas infelizmente não exclusivas dessas Helps da vida. Nem tanto ao céu nem tanto à terra – nem o antro do pecado de sua reputação, nem o paraíso que os funcionários e alguns clientes pintam.



Blá, blá, blá à parte, o fato é que eu não achei a Love Story nada de mais. Para os paulistanos, a quantidade de prostitutas e travestis lá dentro pode ser mesmo meio chocante, principalmente porque, nas “baladas”, as tribos não se misturam. Mas para quem está acostumado com a Lapa e as praias cariocas, essa convivência entre as panelinhas é bem normal. Porque na “night” a gente se acostuma com esse tipo peculiar de democracia urbana.

 
Julia Wiltgen foi à Love Story escrever uma reportagem para o Curso Abril de Jornalismo 2010. Não, não foi para se divertir.

4 comentários:

Rodrigo Cruz disse...

Excelente o final, que você não foi lá pra se divertir. hehehe.
São Paulo é melhor que o Rio em muitos aspectos, mas o que eles são muito ruins (maldade minha) é o paulistano. Reconheço que fui altamente preconceituoso. hehehe
Texto excelente. Te confesso que estou gostando muitos destes textos, porque não conheço São Paulo e você está circundando por onde é mais interessante, pela boemia, pela cozinha, pela sujeira gostosa, por onde os puritanos gostariam que não existisse.
Parabéns

Bruno Quintella disse...

Gostei dessa construção! ;)

RG Filmes Inc. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
RG Filmes Inc. disse...

nossa não me recordava mais desta entrevista e aos fins de semana e la que alivio o strees a o som dos meus amigos djs os melhores de sp
http://rgfilmesinc.blogspot.com/ por que durante a seman me dedico a meu projeto em periodo integral acessem e comprovem
#FilmesInc. por que a vida não e so trabalho e tambem diversão
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