segunda-feira, 12 de abril de 2010

Rio


Toquem o vídeo para ler a crônica


“Finda a tempestade
O sol nascerá
Finda esta saudade
Hei de ter outro alguém para amar”
(Cartola e Elton Medeiros)



O tempo passava em velocidade dolorosa. Quanto mais a terça-feira se aproximava, mais apertado ficava o seu peito. Havia, claro, a empolgação da novidade, aquele feitiço, verdadeiro ímã que a atraía. Um novo emprego, novos amigos, ter seu próprio canto, tudo muito fascinante. Mas havia também uma apreensão em relação ao que ia deixar para trás: uma casa que era um refúgio, uma família grande e barulhenta, amigos-quase-irmãos e um homem... bem, um homem. E a cidade.



A cidade que era mais que uma cidade. Era a capital de um estado de espírito. Era uma vida de altos e baixos, de morros e praias, mistura infiltrável de perigo e beleza. O homem, também, era mais que um homem. Era a própria cidade encarnada em bronzeado. Sorriso tímido convivendo com a fala gingada e o beijo demorado de uma mesma boca. Carinho seco e sensualidade displicente de quem sabe que não precisa se esforçar para ser assim. Leveza de quem é profundamente sensível à séria desgraça humana. Um homem que era, na verdade, um eterno menino. Vocês sabem de onde. De todos os lugares e de lugar nenhum. Do nunca.



Seria a última vez que se veriam antes de sua partida. Ela aguardava ansiosamente pelo fim do dia. Não sabia o que aconteceria depois que fosse embora. Preferia não pensar. A chuva começava a bater nas janelas, com cada vez mais força. Talvez até mais tarde diminua, ela pensou. Mas o volume de água despejado pelo céu aumentava e aumentava, até que todo o estado ficou coberto por uma cortina líquida.



Em minutos, o Rio tornou-se um mar revolto. O oceano se irritou e se esparramou pela terra. Os cursos d’água não puderam mais correr em seus leitos estreitos, nem se espremer por galerias entupidas de detritos, não tendo outra escolha senão fugir pelas ruas. E a lagoa resolveu dissolver suas fronteiras e crescer até alcançar a porta dos ricos prédios que a cercavam.



Enquanto isso, nos morros, o solo não aguentava o peso do aguaceiro e expulsava, com violência, os casebres que, há anos, se equilibravam na ponta dos penhascos. O chão cedeu e, num instante, centenas de vidas se viram encobertas por uma avalanche negra. De uma hora para a outra, quem já não tinha muito ficou com menos que nada.



Todo mundo teve que permanecer onde estava. Ela, em casa. Ele, em um posto de gasolina no ponto mais suscetível a enchentes de toda a cidade. Celulares cortados. Não se veriam mais naquela noite. Teriam dificuldade de se falar. Ela se preocuparia em saber se ele voltaria bem para casa. Só Deus sabia a que horas ele sairia de lá. Ele e mais centenas de pessoas paradas no mesmo lugar. E mais milhares de pessoas paradas em outros lugares. E mais milhares de pessoas enfileiradas em seus carros no engarrafamento infinito. Ilhas e mais ilhas esperando a chuva passar, e a água voltar para o seu lugar.



Amanheceu. A chuva cessou. A água baixou, mas deixou a lama. Os carros ficaram abandonados nas calçadas, nos recuos, nos canteiros. Muitas ruas ainda alagadas e muitas pistas interditadas por causa de quedas de barreiras. O trânsito estaria insuportável, não fosse a recomendação das prefeituras e do governo do estado para que se ficasse em casa. Quase ninguém foi trabalhar, ninguém foi à escola. Prejuízo. As buscas nos locais de tragédia estavam a todo vapor. Começavam a aparecer os primeiros mortos.



Eles queriam se ver, pelo menos para se despedir. Ele não tivera como voltar para casa, do outro lado da Baía, onde mais tarde ocorreriam os piores desastres. Talvez por obra de uma força benéfica e piedosa, ele ficara no mesmo bairro que ela, o qual na noite anterior estivera isolado do resto da cidade por causa das enchentes. Os dois saíram na lama e fizeram valer algumas poucas horas em meio ao caos. A cidade estava triste. Ela também. Despediu-se com uma carta e muitos beijos.



Mais tarde, a chuva voltou. Não houve alagamentos, mas o desespero nas encostas só cresceu. Era apenas o início de uma sopa de números assustadores. Até a semana seguinte, seriam mais de duzentos mortos, onze mil desabrigados, sessenta mil desalojados, quatro mil famílias a serem removidas de suas casas e um bilhão de reais para fazer tudo isso. O retrato de décadas de descaso do poder público somado à falta de informação da população e à priorização de projetos cosméticos no lugar de reformas estruturais.



Mas não seriam só números. Esses dados teriam rostos, nomes, cores, lágrimas, vozes. “Se perder um já é difícil, imagine seis,” diria um sobre seus parentes mortos. “Minha casa está ali, intacta. Mas o mais importante, que é o meu filho, está ali,” diria outro apontando para um monte de terra. Durante vários dias, milhares de pessoas lamentariam seus mortos e a dor de perder o pouco que possuíam. O vazio de não ter mais nem mesmo um casebre construído sobre o lixo.



No dia seguinte, bem cedo, ela pegou suas malas e partiu. O céu estava cinza e a chuva caía fina, como o pranto contido Daquele que agora se encontrava isolado, bloqueado lá no alto de sua fortaleza de pedra, ainda de braços abertos. Na despedida, a cidade chorava. Mas ela não chorou. Porque sabia que, mais dia, menos dia, o sol voltaria a nascer.

5 comentários:

Mayrielly disse...

Tratar a realidade de uma forma poética é para poucos. Sublime. Ela não chorou, mas eu ao ler sim... Saudades...

Bruna Letícia disse...

Lindo Ju!! Adorei! Pode ter certeza que o sol voltará a brilhar sim, SEMPRE!

Rodrigo Canuto disse...

Ah, então foi por isso q choveu tanto... Vc já foi...
Não deixe SP acabar com sua carioquice.

Bruno Quintella disse...

A lentidão e a rapidez poderão ser dores sempre, o que muda é o que elas transportam.

Gostei muito. Você está amadurecendo as palavras, Julia. E nós amadurecemos com elas - e com você.

beijo enorme

emmyfreitas disse...

Céus! Reagi da mesma forma que a sua irmã. Você não chorou, mas eu sim, ao terminar de ler seu texto.

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