"Tem mil coisas pra gente dizer/ O difícil é saber terminar" (Foto: Custódio Coimbra)
“O meu lugar
É cercado de luta e suor
Esperança num mundo melhor
E cerveja pra comemorar”
(Arlindo Cruz)
Felicidade é almoçar no bufê da Confeitaria Colombo, lavar as mãos com sabonete líquido das Casas Granado e coroar a refeição com um espresso no balcão do Rubro Café em meio à bagunça do meio-dia. É percorrer becos tomados por casarões até os sebos empoeirados da Praça Tiradentes para resgatar revistas amareladas de baixo de bichanos preguiçosos esparramados.
Felicidade é encontrar Mozart, Beethoven, Verdi, Puccini, Carlos Gomes, Tchaikovsky, Rossini e tantos outros imortais embaixo de uma águia de ouro, e depois ir comer pipoca com bacon na esquina da Rua Santa Luzia. É ouvir o som de Villa pela Orquestra Sinfônica Brasileira, ou o som da Vila, a poucos passos dali, em algum sobrado de nome sugestivo.
Felicidade é mergulhar na alteridade à sombra de um antigo aqueduto, onde o Rock contempla o Clássico, o Samba se mistura ao Funk e o Hip Hop abraça o Soul. Onde as pernas dos casais se enroscam no Forró e na Salsa e os copos dos amigos tilintam em brindes de todas as cores. Onde os pés de prostitutas e travestis trilham os mesmos caminhos de irmãs de caridade da ordem de Madre Teresa.
Felicidade é estar no Morro da Conceição às onze horas de um sábado à noite, observado por ladeiras de paralelepípedos, casas do século XIX, uma imagem de Nossa Senhora e a sentinela solitária da 5ª Divisão de Levantamento do Exército. É ouvir as brincadeiras das crianças e cheirar a história da colonização sob a bênção imponente do edifício RB1, que ilumina tudo de longe com seu neon azulado.
Felicidade é dançar forró no meio da rua, comer buchada de bode e vatapá, jogar totó e fliperama, comprar um chapéu de couro e cantar “Olhar 43” no Karaokê, tudo isso em uma viagem relâmpago ao Nordeste brasileiro. É visitar aposentos reais cheios de dinossauros e aerólitos depois de ver macacos e leões. É quase tocar as estrelas com o olhar, chegar à Lua em um segundo e, brincando, entender a ciência de Deus.
Felicidade é sentar-se no Parque do Flamengo às cinco horas de uma tarde de primavera, sentindo o cheiro doce-cítrico das flores dos abricós-de-macaco e ouvindo o silêncio que às vezes se sobrepõe ao caos da grande cidade. É contemplar a amplidão do mar. Da areia de Ipanema, da Pedra do Arpoador, do alto do morro da Babilônia, do Mirante do Leblon, da Fortaleza de Santa Cruz, do Viaduto do Joá, do calçadão de Copacabana.
Felicidade é fotografar do lado de fora do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, entre a Baía de água brilhando e a obra do mestre Niemeyer. É ficar engarrafado na Ponte enquanto o sol se põe e ter por consolo a visão de navios, plataformas e guindastes fascinantes que recortam uma imensidão de amarelos, laranjas e liláses.
Felicidade é comer comida alemã ouvindo Jazz, jogar sinuca ouvindo Heavy Metal, beber chope ouvindo Pagode, passear na pracinha ouvindo Choro, sambar no Salgueiro vindo abaixo. É encarar uma hora e meia de caminhada pela Floresta da Tijuca só para, a um quilômetro do nível do mar, ver de cima aqueles prédios e aqueles parques, aqueles barracos e aquelas matas, aqueles morros e aquelas praias.
Felicidade é esperar o ano inteiro pelo mês de fevereiro, pela alegria dos confetes e serpentinas das ruas e pelo luxo das plumas e lantejoulas da Sapucaí. É o calor infernal da festa pagã que antecede quarenta dias de abstinência banhados em águas que lavam e castigam todo pecado. E prenunciam o clima brando do outono.
Felicidade é a devoção dos domingos no Maracanã, das promessas pagas de joelhos nas escadarias da Penha, das multidões cheias de Axé que veneram um santo guerreiro, das procissões rumo ao mar que com suas flores anunciam a chegada de novos tempos. É a devoção de um povo à sua própria cidade, apesar de todas as mazelas que a afligem.
Felicidade é caminhar sobre notas musicais, ondas e peixes, mas só pisar nos pretos, nunca nos brancos dos pianos das calçadas. É caminhar sabendo que, onde quer que se esteja, Ele está lá de braços abertos, sempre vigilante, olhando até mesmo por aqueles que estão distantes da Sua morada litorânea.
Felicidade é, sobretudo, carregar nos olhos paisagens intrigantes; na fala, um sotaque chiado; no sangue, uma ginga de quem já nasceu com rebolado; no coração, uma fé de quem vê Deus e o Diabo todos os dias; e, no rosto, um inconfundível sorriso. É poder carregar tudo isso para onde for e ainda assim sempre querer voltar.
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E pra você? O que é felicidade?


3 comentários:
Gostei, muito bom. Com um " que" de pessoal, de coisas já vividas por alguém que se despede do Rio e que certamente sentirá saudades...Boa sorte!
Excelentes lembranças de Rio simples e maravilhoso. Coisas pequenas e grandiosas que nós temos e que muitos não conseguem perceber.
Vejo muitos negarem o Rio, muitos dizerem o Rio é feio. O Rio é velho, o Rio é só a Zona Sul.
Acho que você é a pessoa (digo carioca) mais indicada a ir para São Paulo, porque você é que realmente pode passar para os paulistas o verdadeiro espírito do Rio.
Meus parabéns pela crônica, é muito poética, linda. Boa sorte em São Paulo, a cidade grande das cidades grandes.
Beijocas
Por um momento eu gostei de ser carioca. Só você mesmo, com suas palavras, pra me fazer sentir isso...
É; não sou uma carioca típica e nem morro de amores por essa cidade, mas o Rio, querendo ou não, é minha história. E o Rio sem você vai ser uma parte de mim que ficará distante, mas, você sabe, não tão distante assim. ;)Lembre-se sempre: 400 km não são naaaaaada!
Enfim, felicidade pra mim é... um clima mais ameno, um outro idioma, um outro país.
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