O samba é a crônica da música (Caricatura: Lan)"Quantas noites de tristeza ele me consola
Tenho como testemunha a minha viola
Ai! Se me faltar o samba não sei o que será
Sem a cadência do samba não posso ficar" (1)
(Délcio de Carvalho)
Tenho como testemunha a minha viola
Ai! Se me faltar o samba não sei o que será
Sem a cadência do samba não posso ficar" (1)
(Délcio de Carvalho)
“Se, um dia, meu coração for consultado, para saber se andou errado, será difícil negar. Meu coração tem mania de amor. Amor não é fácil de achar. A marca dos meus desenganos ficou, ficou... só um amor pode apagar.” (2)
O primeiro bamba era um gato – um solitário de voz macia, olhos bondosos e estilo de vida fascinante. Talvez tenham sido as canções que ele ouvia o dia inteiro; ou talvez sua inteligência ímpar; ou ainda as lembranças dos anos que ele já viveu e eu ainda não.
Mas acho que não foi nada disso. Devem ter sido seus carinhos precisos, seus beijos macios, seus redemoinhos que me arrastaram para o seu mundo. Sim, acho que foram aqueles momentos em silêncio, que palavras não descrevem, mas cuja recordação é boa, ah, se é...
“Me deixa te trazer num dengo, pra num cafuné, fazer os meus apelos” (3), ele pedia sorrindo. Eu deixava, como não? E me apaixonava mais a cada elogio, cada plano, cada promessa de felicidade.
É claro que me confundi. Aquele era um amor fadado ao desencontro. Admito, me decepcionei ao descobrir a fantasia que construí para encobrir a verdade dolorosa que, no fundo, já conhecia. Mas não me surpreendi quando, ao interpelá-lo sobre o destino da nossa relação, ele friamente declarou:
“Tudo que quiseres te darei, ó flor. Menos meu amor. Darei carinho se tiveres a necessidade. E peço a Deus para te dar muita felicidade. Infelizmente, só não posso ter-te para mim. Coisas da vida... é mesmo assim. Embora saiba que me tens tão grande adoração, eu sigo a ordem e esta é dada por meu coração. Nesse romance existem lances sensacionais. Mas te dar meu amor, jamais.” (4)
“Lances sensacionais”. Então era só isso que ele queria. Me queria bem, isso decerto, mas nada de compromisso. Eu só não conseguia entender as atitudes enganosas de meu amante. “Se você não me queria, não devia me procurar, não devia me iludir, nem deixar eu me apaixonar” (5), rebati.
Ele, por sua vez, não compreendia por que aquela relação não poderia ter sido mais leve, mais solta, mais casual, enfim. Isso não. Não sou dessas. Queria-o só para mim, qual o problema? Ao perceber nossos objetivos diferentes, ele resolveu pôr um ponto final naquela história.
Durante certo tempo, sofri. Intercalava meu choro com lamentos de revolta e tristeza. “Seu jogo é carta marcada, me enganei nem sei por quê. Sem saber que eu era nada, fiz meu tudo de você! Pra você fui aventura, você foi minha ilusão. Nosso amor foi uma jura que morreu sem oração” (6), gritava nas horas de desespero. “Você abusou... tirou partido de mim, abusou...” (7), sussurrava entre os soluços da hora de dormir.
Mas passou, como era de se esperar. “Ali onde eu chorei, qualquer um chorava. Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava” (8). Eventualmente, aquela ferida virou uma cicatriz e parou de doer. Voltei a sorrir. “Finda a tempestade, o sol nascerá; finda esta saudade, hei de ter outro alguém para amar” (9). Esse é o espírito.
Coincidência ou não, depois de uma grande decepção amorosa, eu costumo me mudar de cidade. Apenas um mês antes de partir, no entanto, conheci mais um daqueles. “Malandro de fato é um cara maneiro, que não se amarra em uma só mulher” (10).
O segundo bamba eu já sabia que não ia prestar. Mas, fazer o que, era um sedutor de primeira. Carinha de menino e determinação de um leão. É... leonino é fogo... Foi num samba que ele me puxou pela cintura e não soltou mais.
Eu embarquei, mas de antemão já sabia: ele não se apaixona nem se compromete, não adianta tentar. “Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho” (11). Mantive isso em mente.
Meu novo amor era bem diferente do anterior. A inteligência divertida, os sonhos encantadores, a vida interessante, tudo isso era parecido. Mas nada de elogios, nada de planos, nada de promessas de felicidade. Nada de carinho, enfim. Apenas uma paixão avassaladora, combustão pura, sem oxigênio – espontânea e absolutamente exaustiva.
Só que como toda mulher de bamba, eu sou boba, e ensaiei uma paixonite. Os obstáculos tornavam nossa relação ainda mais emocionante: viagens desencontradas, enchentes que impediam nossas escapadas, horários de trabalho que nunca batiam. Mas quando nos víamos... Ah! A mistura de nossos sabores tinha o gosto da vitória!
Como toda chama, aquela relação ardeu e se apagou na mesma velocidade com que se acendeu. Foi só eu me mudar de vez, que ele desapareceu da minha vida sem deixar rastro. Já devia estar se esbaldando em outras cinturas, em outros sambas.
“Fui gostar de quem não gosta de ninguém e hoje só me resta a dor” (12), lamentei. Não alimentara esperanças desta vez, então a tristeza passou tão longe quanto a surpresa. Mesmo assim, difícil não se decepcionar.
“Será que o amor é isso? Se é feitiço, vou jogar flores no mar” (13), cheguei a pensar. Ah, até parece, eu já esperava, a quem eu queria enganar? Melhor assim. “Se quiser se distrair, ligue a televisão. Amor, comigo não” (14). A gente tem que se impor. Humpf!
Rio comigo mesma. Amores passam. Se para toda situação da vida existe um samba, é porque ninguém está só em seus desenganos. Estamos à volta com amores imperfeitos, talvez não tão eternos, nem tão incondicionais. Talvez nem tão amores. Mas ainda assim, como todo amor, sinceros e tolos.
“Ah, meu pobre coração... O amor é um segredo e sempre chega em silêncio como a luz do amanhecer. Por isso deixo em aberto meu saldo de sentimentos, sabendo que só o tempo ensina a gente a viver.” (15)
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Conheça as músicas desse texto:

4 comentários:
Belíssimama seleção, belíssimo texto.
( e o fora que ainda dói, dói, dói rsrsrsrsrssr)
Excelente!
Sempre te entendo, porque nossas vidas seguem num ritmo parecido. Ora somos um samba-enredo, ora samba-canção...E nossos homens sambistas sempre maltratam nosso coração, como quem machuca um pandeiro.
Sinto que faltou alguma música entre todas escolhidas. acho que entre o Cartola e Neguinho, caberia bem um Candeia: "Me sinto igual a uma folha caída/ Sou o adeus de quem parte/ Pra quem a vida é pintura sem arte/ A flor esperança se acabou/ O amor, o vento levou/ Outra flor nasceu é a saudade/ Que invade tirando a liberdade/ Meu peito arde igual verão/ Mas se é pra chorar, choro cantando/ Pra ninguém me ver sofrendo/ E dizer que estou pagando"
Continuando, ainda sobre suas pausas, sobre as entremúsicas, uma última colocação, que viria logo após o Candeia: João Nogueira.
Seguinte: "Tudo é mesmo só metade
Restou somente uma saudade
Depois que você foi embora
Vou morrendo verso em verso
Volta amor que é hora"
Gostei do ensaio, senhorita.
A.Ignacio
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